O fim (merecido) da UE
Não deixa de ser irónico que nas actuais negociações para a ajuda externa a Portugal, o papel da "esquerda" esteja a representado pelo FMI e os duros sejam exactamente a UE e o BCE, que querem impôr juros maiores e prazos menores, independentemente dos problemas sociais que isso poderá despoletar num país como Portugal que tem características terceiro-mundistas (um grande fosso entre os mais ricos, que podem ganhar milhões, e os mais pobres, que podem sobreviver com míseras pensões de 100 ou 150 euros mensais).
Mas o mais irónico é que foi a mesma UE que mandou rios de dinheiro para Portugal sem se preocupar em estabelecer um mecanismo eficiente do controle da aplicação desses dinheiros. E porquê? Porque sabiam que os portugueses iam gastar o dinheiro em carros basicamente importados da Alemanha (todos sabem que os patos-bravos dos novos-ricos portugueses gostam muito dos Mercedes, dos BMW e dos Audi...), e portanto foi dinheiro que não só voltou à origem, como serviu para dinamizar a indústria automóvel alemã num tempo em que isso era necessário.
Agora a Alemanha exige medidas duras contra Portugal... O FMI acha, e bem, que os juros exigidos devem ser menores que aqueles que a Alemanha quer impôr. Evidentemente que o FMI não é estúpido e sabe até que ponto o mercado Ibérico contribuiu para o crescimento da Alemanha, da mesma forma que sabe que se a Alemanha estivesse realmente interessada no desenvolvimento da indústria produtiva portuguesa teria imposto mecanismos eficazes no controle da aplicação verbas comunitárias desde o início, e agora Portugal seria um país competitivo e exportador, coisa que até poderá não interessar muito aos seus parceiros da UE... O mesmo se está a passar nos países de "leste", onde todos sabemos que parte das ajudas comunitárias estão a ser desviadas pelas máfias locais. Mas que importa isso à Alemanha desde que eles continuem a ser dos principais compradores dos carros alemães, como a Roménia o é?
A grande hipocrisia da UE assentou desde sempre nisto mesmo: sabiam que as ajudas estavam a ser canalizadas para outros fins mas fechavam os olhos, contribuindo para que esses países se afundassem num marasmo de corrupção, inépcia e desigualdades terceiro-mundistas.
Agora é fácil aparecerem como os grandes moralizadores que impôem chicote e castigos para os indisciplinados...
Mas todos já percebemos que a UE não se preocupa com os cidadãos: a UE não é a Europa dos Cidadãos, como andou por aí a apregoar, mas sim a Europa dos Negócios (para alguns). Uma UE destas está condenada ao desaparecimento e a ideia que "por aí corre" de que Espanha e Portugal devem intensificar os laços e voltar-se decididamente para a "América Latina" e Ásia, onde mantêm excelentes relações, sobretudo Portugal, é uma ideia que, por mais anti-corpos que cause, está aí para ser discutida. Isto não significa que Espanha e Portugal se federalizem num Estado único, mas simplesmente que adoptem estratégias comuns e mecanismos proteccionistas (exactamente, proteccionistas) comuns.
A UE está em coma. Já ninguém se levanta para defender convictamente o "projecto europeu". De resto, desde o início sabiamos que a UE é marcadamente artificial. Não pela discrepância linguística, mas pela discrepância de tudo: não há praticamente pontos de contacto relevantes entre os "povos" que integram a UE. Por isso não é de estranhar que os finlandeses não queiram ajudar Portugal. É normal que não queiram ajudar Portugal, porque toda e qualquer relação entre Portugal e a Finlândia é uma relação forçada e artificial. Já o mesmo não acontece entre Portugal e Espanha, que grosso modo partilham a mesma origem e história, e, numa esfera mais alargada, entre Portugal, Espanha e França, onde o idioma tem a mesma origem (latina), onde não há um fosso cultural intrasponível, antes pelo contrário, e onde existem múltiplos factores de inter-identificação (durante as ditaduras ibéricas parte dos grandes artistas e criadores ibéricos refugiaram-se em França, que os adoptou e os assimilou como seus). Portugal e Espanha podem e devem pensar "grande" e para além da França e "América Latina" *, estabelecerem uma relação previligiada também com os EUA e o Canadá, onde vivem grandes e activas comunidades de portugueses e espanhóis. Mas para isso há que extreminar totalmente a corrupção dos países ibéricos. Sem isso todos os potênciais parceiros olharão Portugal e Espanha como antros de corruptos sem credibilidade.
* na verdade "América Latina" é um eufemismo, porque só lá existe uma "potência" que "vale a pena": chama-se Brasil e fala português. Uma "união", "acordo expandido", ou o que quer que fosse, entre Portugal e Brasil, com as ramificações asiáticas portuguesas (Timor significa uma amizade genuína e um país que escolheu falar português, já Macau quer dizer China), valeria mais que todas as UE's, "pró-Ibérias" e outras invenções. Tivesse Portugal inteligência, criatividade e sobretudo ética...
Nota: Portugal não deve aceitar pagar mais de 3,53% de juros pela "ajuda", de acordo com os cálculos de Armando Nunes. Caso tentem impôr juros mais elevados Portugal deve recusar a "ajuda" e partir para a renegociação da dívida, como o vai fazer a Grécia (onde a "ajuda" da UE e do FMI só serviu para piorar a situação), e como defende o PCP ("disclaimer": não sou, não fui, nem serei do PCP).
Nota 2: uma coisa é certa, nem os alemães nem a UE têm qualquer responsabilidade neste descalabro total:
"O INE anunciou este sábado que o défice de 2010 passa a ser de 9,1 por cento do PIB por causa de três contratos de Parcerias Público Privadas (PPP)." publico.pt (23 de Abril)
Nota 3: a Espanha tem de ter mais cuidado com o que anda a exportar:
"Na semana passada, a organização Human Rights Watch (HRW) denunciou a utilização pelos militares de Kadafi destas bombas, fabricadas em Espanha em 2007, nos seus ataques às zonas residenciais de Misrata.
A HRW alertou então para o "grave perigo" que estas armas significam para a população civil e adiantou que, depois de ter investigado vários fragmentos, concluíra que se tratam de bombas MAT-120, fabricadas pela empresa espanhola Instalaza há quatro anos, antes de a Espanha subscrever o tratado internacional contra este tipo de bomba." jn.pt
Não deixa de ser irónico que nas actuais negociações para a ajuda externa a Portugal, o papel da "esquerda" esteja a representado pelo FMI e os duros sejam exactamente a UE e o BCE, que querem impôr juros maiores e prazos menores, independentemente dos problemas sociais que isso poderá despoletar num país como Portugal que tem características terceiro-mundistas (um grande fosso entre os mais ricos, que podem ganhar milhões, e os mais pobres, que podem sobreviver com míseras pensões de 100 ou 150 euros mensais).
Mas o mais irónico é que foi a mesma UE que mandou rios de dinheiro para Portugal sem se preocupar em estabelecer um mecanismo eficiente do controle da aplicação desses dinheiros. E porquê? Porque sabiam que os portugueses iam gastar o dinheiro em carros basicamente importados da Alemanha (todos sabem que os patos-bravos dos novos-ricos portugueses gostam muito dos Mercedes, dos BMW e dos Audi...), e portanto foi dinheiro que não só voltou à origem, como serviu para dinamizar a indústria automóvel alemã num tempo em que isso era necessário.
Agora a Alemanha exige medidas duras contra Portugal... O FMI acha, e bem, que os juros exigidos devem ser menores que aqueles que a Alemanha quer impôr. Evidentemente que o FMI não é estúpido e sabe até que ponto o mercado Ibérico contribuiu para o crescimento da Alemanha, da mesma forma que sabe que se a Alemanha estivesse realmente interessada no desenvolvimento da indústria produtiva portuguesa teria imposto mecanismos eficazes no controle da aplicação verbas comunitárias desde o início, e agora Portugal seria um país competitivo e exportador, coisa que até poderá não interessar muito aos seus parceiros da UE... O mesmo se está a passar nos países de "leste", onde todos sabemos que parte das ajudas comunitárias estão a ser desviadas pelas máfias locais. Mas que importa isso à Alemanha desde que eles continuem a ser dos principais compradores dos carros alemães, como a Roménia o é?
A grande hipocrisia da UE assentou desde sempre nisto mesmo: sabiam que as ajudas estavam a ser canalizadas para outros fins mas fechavam os olhos, contribuindo para que esses países se afundassem num marasmo de corrupção, inépcia e desigualdades terceiro-mundistas.
Agora é fácil aparecerem como os grandes moralizadores que impôem chicote e castigos para os indisciplinados...
Mas todos já percebemos que a UE não se preocupa com os cidadãos: a UE não é a Europa dos Cidadãos, como andou por aí a apregoar, mas sim a Europa dos Negócios (para alguns). Uma UE destas está condenada ao desaparecimento e a ideia que "por aí corre" de que Espanha e Portugal devem intensificar os laços e voltar-se decididamente para a "América Latina" e Ásia, onde mantêm excelentes relações, sobretudo Portugal, é uma ideia que, por mais anti-corpos que cause, está aí para ser discutida. Isto não significa que Espanha e Portugal se federalizem num Estado único, mas simplesmente que adoptem estratégias comuns e mecanismos proteccionistas (exactamente, proteccionistas) comuns.
A UE está em coma. Já ninguém se levanta para defender convictamente o "projecto europeu". De resto, desde o início sabiamos que a UE é marcadamente artificial. Não pela discrepância linguística, mas pela discrepância de tudo: não há praticamente pontos de contacto relevantes entre os "povos" que integram a UE. Por isso não é de estranhar que os finlandeses não queiram ajudar Portugal. É normal que não queiram ajudar Portugal, porque toda e qualquer relação entre Portugal e a Finlândia é uma relação forçada e artificial. Já o mesmo não acontece entre Portugal e Espanha, que grosso modo partilham a mesma origem e história, e, numa esfera mais alargada, entre Portugal, Espanha e França, onde o idioma tem a mesma origem (latina), onde não há um fosso cultural intrasponível, antes pelo contrário, e onde existem múltiplos factores de inter-identificação (durante as ditaduras ibéricas parte dos grandes artistas e criadores ibéricos refugiaram-se em França, que os adoptou e os assimilou como seus). Portugal e Espanha podem e devem pensar "grande" e para além da França e "América Latina" *, estabelecerem uma relação previligiada também com os EUA e o Canadá, onde vivem grandes e activas comunidades de portugueses e espanhóis. Mas para isso há que extreminar totalmente a corrupção dos países ibéricos. Sem isso todos os potênciais parceiros olharão Portugal e Espanha como antros de corruptos sem credibilidade.
* na verdade "América Latina" é um eufemismo, porque só lá existe uma "potência" que "vale a pena": chama-se Brasil e fala português. Uma "união", "acordo expandido", ou o que quer que fosse, entre Portugal e Brasil, com as ramificações asiáticas portuguesas (Timor significa uma amizade genuína e um país que escolheu falar português, já Macau quer dizer China), valeria mais que todas as UE's, "pró-Ibérias" e outras invenções. Tivesse Portugal inteligência, criatividade e sobretudo ética...
Nota: Portugal não deve aceitar pagar mais de 3,53% de juros pela "ajuda", de acordo com os cálculos de Armando Nunes. Caso tentem impôr juros mais elevados Portugal deve recusar a "ajuda" e partir para a renegociação da dívida, como o vai fazer a Grécia (onde a "ajuda" da UE e do FMI só serviu para piorar a situação), e como defende o PCP ("disclaimer": não sou, não fui, nem serei do PCP).
Nota 2: uma coisa é certa, nem os alemães nem a UE têm qualquer responsabilidade neste descalabro total:
"O INE anunciou este sábado que o défice de 2010 passa a ser de 9,1 por cento do PIB por causa de três contratos de Parcerias Público Privadas (PPP)." publico.pt (23 de Abril)
Nota 3: a Espanha tem de ter mais cuidado com o que anda a exportar:
"Na semana passada, a organização Human Rights Watch (HRW) denunciou a utilização pelos militares de Kadafi destas bombas, fabricadas em Espanha em 2007, nos seus ataques às zonas residenciais de Misrata.
A HRW alertou então para o "grave perigo" que estas armas significam para a população civil e adiantou que, depois de ter investigado vários fragmentos, concluíra que se tratam de bombas MAT-120, fabricadas pela empresa espanhola Instalaza há quatro anos, antes de a Espanha subscrever o tratado internacional contra este tipo de bomba." jn.pt