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A mostrar mensagens com a etiqueta Crítica

outros jeitos de usar a boca

Você já deve ter ouvido falar do livro  outros jeitos de usar a boca , da jovem escritora Kupi Kaur. O título chama a atenção. A obra esteve em 1º lugar na lista dos mais vendidos do  The New York  Times . 

Dois ensaios sobre a Fé

A Aparição, de Xavier Giannoli, é um curioso filme que nos confronta com a funcionalidade da Fé, quer no aspeto de necessidade d@ crente (as pessoas que a procuram), quer da instituição (a comissão do Vaticano), na relação de tensão com a santidade genuína (Anna), que transcende tanto a necessidade dos crentes como a necessidade (de credibilidade) da instituição Vaticano, que assume consistentemente um papel de ironia depreciativa face a Anna ("entre a santidade ou a formação para cabeleireira...", lança um dos enviados do Vaticano). O outro lado da santidade é a mentira autruísta, já que Anna é a substituta da verdadeira vidente. Também não falta o padre charlatão que quer transformar aquilo num negócio de dimensão internacional e que terá produzido a "relíquia", que é mais um elemento gerador de entropia, desnecessário, ou só necessário para o argumento, pois é este elemento estranho que vai desencadear o colapso de Anna. Interessante é a angústia que a santidade ...

Drvo (A árvore)...

A sequência inicial é Tarkovsky "puro". Depois disso é ao estilo de Bela Tarr. Só falta o génio, ou seja, tudo. O monólogo final é de uma trivialidade de fugir, sobretudo quando impregnada de um pretenciosismo desmedido. André Gil Mata dá-nos um exemplo da liminar falta de singularidade, onde nem a técnica escapa, numa época de perfeição técnica, pois a imagem está impregnada de um ruído insuportável. Mas mesmo que a técnica fosse perfeita mais não seria que uma colagem de estilos sem consistência nem talento. No extremo oposto, também de 2018, está "Cold War" (Guerra Fria), de Pawel Pawlikowski. Despretensioso e pleno de inspiração, oferece-nos uma história de amor que entronca na história do pós-guerra europeu, na oscilação entre a vida parisiense, depois da fuga ao regime, e a tragédia, com o regresso ao regime, por amor; amor em estado puro. O filme remete-nos para as grandes epopeias e acaba numa tragédia, algo serena, que foi o último escape, desta vez a doi...

Encontros da imagem de Braga: a insustentável leveza da charlatanice

Inauguram com um concerto (con quê?) de um kitsch que pensava inexistente nos dias que correm. Não me lembro do nome do sujeito mas lembro-me das colagens grosseiras de estilos, tipo copia coisa daqui coisa dali para chamar áquilo a música dele. As imagens que passavam nem tinham qualquer conexão com o som nem tinham qualquer conexão entre elas próprias. Uma aberração que jamais teria lugar, por exemplo, nos concertos ao ar livre, gratuítos, de instituições credíveis, porque, mesmo ao ar livre e gratuitamente, aquilo não passa nos critérios mínimos de qualquer instituição com decisor@s dotad@s de cultura auditiva mínima. Pois aqui, as e os espertalhões da GNRation cobraram 7 euros, exceto à gente dos encontros da imagem... Um exemplo de como no mundo da arte a charlatanice faz caminho fácil: vai-se buscar um DJ a fazer umas banalidades que soam sempre a qualquer coisa, ou uma série de várias coisas já ouvidas, ainda por cima daquelas que não perderiamos mais que dois minutos a escutar,...

Maria Madalena

Maria Madalena, cuja vida foi deliberadamente deturpada pelo Papa Gregório I, tem agora um filme, de Garth Davis, que vai mais além da simples reposição de uma suposta "justiça histórica" * pois transmite uma visão "ideológica": revolução versus compaixão. Pedro, no início e no final, afirma que ela iria dividir os apóstolos. Não dividiu. Prevaleceu a visão patriarcal, ao ponto de Gregório I a transformar de discípula eleita de Jesus, em prostituta. Era isso que ela seria no conceito patriarcal do qual se libertou, em que a mulher é oferecida a quem os homens da família decidem. Esta concepção reinou durante séculos e continua a ditar o comportamento de paises social e culturalmente atrasados, que serão os mais atrasados em termos absolutos, ao ponto de serem necessárias "cotas", para reduzirem anormalidades absolutamente gritantes, em pleno século XXI. A mensagem da compaixão (oposta à ideia de um Cristo revolucionário) coloca a mensagem de Maria Madal...

O capitão

Se se falar da estetização da atrocidade, Robert Schwentke, será um nome incontornável, daqui para diante. Não é de todo por acaso que o filme recebeu um prémio para a melhor fotografia. Também há que destacar a sonoplastia. Impressionante. "O capitão", que é baseado num caso verídico, remete-nos para a "velha" questão da "natureza humana". Não vou repisar a "Carta sobre o Humanismo", de Heidegger, porque se a pensarmos depois de vermos este filme vamos considerar que Heidegger mais não escreveu que um branqueamento da atrocidade, porque é demasiado simples dizer-se que a atrocidade faz parte da "humanidade do homem". Aliás, no julgamento do (falso) capitão, um dos "arguentes" refere que eles próprios (oficiais nazis) tinham tido o "dêdo leve" e que os "excessos" do falso capitão até não foram por aí além... (para se perceber a dimensão dos "excessos" do "capitão" e seus seguidores tem ...

A oitava de Bruckner

Sobre a obra e o compositor recomendo vivamente a leitura da folha de sala, ou "o programa", como normalmente se designa no meio musical. Quanto à interpretação, fiquei surpreendido com a "pulsação" rápida que John Störgårds adotou no Scherzo, longe do "pace" contemplativo de um Celibidache, mas estamos em mundos e épocas diferentes. O contraste com o Adagio foi algo de "eficaz" e, diria mesmo, impressionante. O problema foi que nem todos os naipes conseguiram manter a pulsação adotada pelo chefe de orquestra. A solidez das trompas e das tubas wagnerianas foi notável, assim como a tuba.  De uma forma geral a orquestra esteve bem. Bruckner andou uma vida inteira de músico (foi organista e isso é mais que evidente na sua orquestração) e compositor para escrever três sinfonias absolutamente geniais, as três últimas, sendo que a nona ficou incompleta e há quem diga, não sei porquê, que  foi melhor assim  (parece que a "lógica" é d...

Richard Goode

Interpretou a suite inglesa n°6, de Bach, de forma impressionantemente singularizada, a sonata n° 31, de Beethoven, de forma impactante, e, na segunda parte, o segundo caderno dos Prelúdios, de Debussy, de forma mágica. Ofereceu ainda (se não estou em erro) um Scherzo, de Chopin, numa interpretação poética e arrebatadora, que, depois da transcendental sequência de peças que são os prelúdios, interpretados da maneira que Goode os interpretou, causou, de certa forma, uma espécie de "recaída", mas a realidade é que depois de Debussy, o pianista ou interpretava uma obra mais contemporânea, Messiaen, por exemplo, ou um dos "Klavierstücke" do Stockhausen, ou recuava na história. E decidiu por esta última opção, que, previsivelmente, seria mais do agrado da generalidade do público. Além de que não ofereceu propriamente uma "peçazinha" como "encore". Isto não é nem pretende ser uma "crítica" ao recital, como se deduzirá facilmente, mas uma ...

The Great Tamer

"The great tamer", de Dimitris Papaioannou, anunciado na imprensa "culta" como algo imperdível, explica-nos, basicamente, porque é que o Nietzsche, na Origem da Tragédia, tratou a filosofia antiga como um bluff e, na face inversa, porque é que quem leva os filósofos gregos a sério considera que Nietsche não é um filósofo. Bem na linha da pedrastaria dos gregos antigos, em que banalidades ditas com pompa, num mundo de homens em que as mulheres são meros objetos decorativos e meros objetos conceptuais que só ali aparecem para contribuir para a sustentação de um mundo de pedrastas, que enfaticamente proclamam que sabem explicar a "essência",  seja lá o que isso fôr, banalidades essas que foram suficientemente "marteladas", ao longo do tempo, ao ponto de Heidegger, no século vinte, ter ido repescar um abstruso pseudo-conceito (o Ser), que não só determinou toda a sua filosofia como determinou, em certa medida, tudo o que se lhe seguiu, apesar de Wi...

Gurrelieder - Arnold Schoenberg

O Schoenberg deveria ter ficado na História não só nem principalmente como o criador do sistema dodecafónico, mas como o criador dos Gurre-lieder, uma das obras mais impressionantes de toda a História. Claro que isto é uma opinião... Na verdade historicamente a invenção do sistema dodecafónico teve consequências ao nível de paradigma, ou mudança de paradigma e, no limite, a "morte" da ideia de "paradigma" (enquanto meta-sistema acima das obras singulares).  Os Gurre Lieder são, e foi esse o propósito do compositor, o "canto do cisne" do romantismo, por isso na terceira parte o côro proclama que "estamos todos mortos". Concerteza que não é por isso (que o texto o proclama), mas é sintomático. O bôbo ironiza com "este" (o rei) que anda por ali desesperado por causa de uma donzela que já morreu há anos. Também não será pela morte que está a ser anunciada, não só do romantismo mas do "meta-paradigma" (a chamada "harm...

“Vader” (Pai)

Os Peeping Tom fecharam o GuiDance 2018 com esta obra, determinada por uma concepção e estruturação "tradicionalistas", onde as fronteiras performers/público são delimitadas da forma "clássica" (o palco dentro do palco e a esfregona a passar por cima das cabeças do público das primeiras filas, nem constituem "novidade' - a arte não tem de ser, nem consegue ser, permanente inovação - nem quebram a delimitação clássica), não sendo tal nem mau nem bom por si mesmo. O tema é absolutamente pertinente numa Europa a envelhecer rapidamente, estando evidente uma mensagem "moralizante", entrecortada por um acutilante "humor negro". Sendo um trabalho interessante, não senti a força impactante de uma Pina Bausch ou a poiesis de uma  Anne Teresa De Keersmaeker, embora tenha sentido a influência de ambas. Assinale-se que não é fácil escapar-se ás suas "marcas"...

Wind River

A jovem agente do FBI Jane Banner é destacada para uma Reserva de Nativos Americanos, situada no estado de Wyoming (EUA), para investigar a morte de uma adolescente, cujo corpo fora encontrado por Cory Lambert, um caçador local. Pouco preparada para o isolamento da região ou para os rigores do clima, ela vê-se com dificuldade em avançar com a investigação. É então que contrata Cory como guia e, com ele, aventura-se por território selvagem onde a lei da natureza impera sobre todas as outras … ["classificação": indispensável ]

O Amante de Um Dia

co-escrito pelo lendário Jean-Claude Carrière, é uma variação sobre o complexo de Electra onde Jeanne, de 23 anos (Esther Garrel, filha do cineasta) regressa a casa do pai, Gilles (Éric Caravaca), professor de filosofia, após um desmando amoroso, para o encontrar a viver com Ariane (Luise Chevillotte), da idade dela. Pretexto para, a rigoroso preto e branco, os temas da possessividade e do ciúme serem tocados numa guitarra delicada mas intensa. E em apenas 1h15m   ["classificação": indispensável]

Três Cartazes à Beira da Estrada

O filme é esta narrativa mais longa do tal trajeto de vingança de Mildred, cosida numa enorme galeria de personagens, cada uma a contribuir com novos gags que fazem dele um carrossel de inesperadas gargalhadas físicas, tal é o desplante dos diálogos de McDonagh. Como se só este tom de comédia feroz conseguisse tratar um tema tão forte sem arriscar cair no lugar comum. Pois é talvez esse estilo impenitente que nos torna reféns desta história em estilo simplório, ainda que a tratar de temas do próprio mito americano .  ["classificação": interessante]

Uma Mulher Não Chora

Katja é casada com Nuri Sekerci, um turco que cumpriu pena por tráfico de drogas. Desde que o filho de ambos nasceu que Nuri se tornou um homem de bem, com emprego fixo em Hamburgo (Alemanha) e uma vida totalmente dedicada à família. Até que um dia, ele e o filho morrem assassinados num atentado à bomba. Katja recorda-se de ter visto uma mulher loira com uma bicicleta à porta do escritório onde sucedeu o crime. É então que as autoridades se deparam com dois suspeitos: um casal alemão movido por ideais de extrema-direita. Katja vai lutar com todas as suas forças pela punição dos culpados. No entanto, com o desenrolar do julgamento, percebe que as coisas não correm a seu favor e decide fazer justiça pelas próprias mãos.  Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro, "Uma Mulher Não Chora" esteve em competição pela Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, onde Diane Kruger foi galardoada com o prémio de Melhor Actriz pela sua interpretação como Katja. A realização cabe ao ...

Da “banalidade do mal”

O filme " Hannah Arendt", realizado por Margarethe von Trotta, foi talvez concebido pensando no momento presente, onde “governos” tentam convencer as pessoas que elas são simplesmente desnecessárias. Não é necessário serem criminosas: essa “desnecesidade” é suficiente para justificar a sua “natural” eliminação. A questão fulcral no filme é a expressão de Arendt sobre o papel dos “representantes” dos judeus. Arendt afirmou que se não tivessem existido esses “representantes”, os números dos “eliminados” seriam substancialmente mais baixos. Esta é uma problemática fundamental. A questão era uma questão de sobrevivência pois enquanto os “representados” eram despejados nos fornos crematórios, os “representantes” eram mantidos vivos, já que eram necessários à “máquina”. Ou seja: os “representantes” faziam parte da própria “máquina” extreminatória. Não admira pois o nível do “escândalo” que as afirmações de Arendt causaram: boa parte do “status quo” judaico eram sobrevive...

Morreu Arthur Danto

Tinha 40 anos quando, em 1964, publicou, no  Journal of Philosophy , o ensaio  The Artworld , no qual propunha o conceito de "mundo da arte", que definia como o contexto cultural e histórico no qual uma obra de arte é criada. O texto teve uma considerável influência no filosofia da arte, e em particular na teoria institucional da arte, do filósofo George Dickie, que recusa as teorias essencialistas e propõe que um artefacto é uma obra de arte quando o mundo da arte e as suas instituições lhe atribuem esse estatuto .

Muito Chão

A peça de Benvindo da Fonseca, "Muito Chão", estreou sábado, 12 de Outobro, no Fórum Luisa Todi, em Setúbal. Lugar interessante para a estreia de uma peça de dança contemporânea. O Fórum encheu-se de pessoas que vieram de fora de Setúbal porque, aparentemente, os sadinos não se deram conta do interesse do evento. Como ainda não se deram conta que, gratuitamente, todas as segundas-feiras, no mesmo espaço, o Lauro António apresenta filmes americanos históricos, da sua escolha, em filme, sim, em película. Gratuitamente, sim, gratuitamente. Há aquela frase das nozes e dos dentes, ou falta deles... Adiante. Lembro-me que numa entrevista à genial  Anne Thérese  (interrompida pela pilha do gravador que acabou...) lhe coloquei a questão da potência da música, sub-repticiamente questionando-a até que ponto a música pode ultrapassar e mesmo anular a força do movimento estético visível, questão se se torna substancialmente mais pertinente no presente trabalho de Benvindo da Fonseca, n...