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Impardonnables

André Téchiné em Impardonnables (2011) conta-nos uma história veneziana, na "Veneza vivida pelos seus habitantes", expressão de Carole Bouquet (que interpreta a personagem Judith) no final da pré-estreia portuguesa, que aconteceu na Festa do Cinema Francês. É relaxante poder ver-se um filme passado em Veneza sem termos que levar em cima com a ponte do Rialto ou praça de São Marcos. Por isso a escolha de uma ilha pareceu-me, estetica e dramaticamente, inteligente porque se por um lado permitiu evitar os "clichés", por outro deu-nos uma paisagem aberta, quer da laguna quer dos campos vinícolas nas traseiras da casa que Francis, o escritor (André Dussollier), alugou para escrever o seu próximo romance. O filme começa com uma citação de Schopenhauer, situando-nos logo na dimensão aparente da obra: "o que eu escrevo é tão inexplicável para mim como o filho o é para a mãe que o engendra" (transcrição livre minha), o que para filósofo é curto e para esteta é lug...

Lucie Aubrac

Um filme de 1996, do realizador Claude Beri. Basicamente um grande filme baseado num caso real da Resistência francesa à ocupação nazi. Este filme traz-nos o lado heróico dos franceses durante o nazismo, heroísmo que foi protagonizado por uns poucos. Os alemães contaram com o apoio criminoso de numerosos franceses, que inclusivamente ocuparam cargos durante a ocupação servindo os nazis contra o seus conterrâneos e contra a Humanidade em geral. Um resistente era obviamente um terrorista para os ocupantes e a pena era evidentemente a morte. O filme gira à volta de uma condenação de um "terrorista" e a forma como a sua mulher, uma professora, organizou um ataque (obviamente "terrorista") para salvar o marido da morte. Um filme brilhante que nos confronta com a tão falada eficácia alemã, neste caso derrotada pela alma de uma mulher inteligente e corajosa, Lucie Aubrac, protagonizada por Carole Bouquet. Viva o terrorismo

Elle s'appelait Sarah

Projectado na Festa do Cinema Francês este filme de Gilles Paquet-Brenner (2010) é mais uma obra contra o esquecimento. É preciso não esquecer que os franceses em 16 e 17 de Julho de 1942, prenderam mais de 12.000 judeus, amontoando-os em condições desumanas, que depois despacharam para a Alemanha e Polónia. Face à indignação de uma americana (isso passou-se no centro de Paris e ninguém fez nada?!), a protagonista, Kristin Scott Thomas a interpretar Julia Jarmond, pergunta-lhe o que faria ela se estivesse naquele tempo naquele local. Uma boa questão... As atrocidades cometidas no Holocaustro ultrapassaram toda a imaginação e remetem-nos directamente para a "Humanidade do Homem", problematizada por Heidegger, que apoiou os nazis e posteriormente, depois da guerra, afirmou ter sido "neutral"... Um tranquilo observador do desvelamento do Ser na história... Tudo isto é interessante mas o importante é que a Arte e o cinema impeçam o esquecimento. A falar em Arte quero le...
Gainsbourg (vie héroïque) Trata-se de um belíssimo filme de Joann Sfar (2010), com duas horas e dez minutos de duração, intercalado por cenas de um surrealismo fantástico extremamente bem conseguido (não será por acaso que aparece o quarto do Dali onde aparentemente o cantor manteve um affair com uma das amantes do artista), e nos conta a vida, ou parte dela, do cantor francês que se cruzou (intensamente) com algumas das figuras mais emblemáticas da canção francesa e da música pop europeia. Evidentemente que a música é omnipresente, o que é uma mais-valia para este excelente trabalho que constituiu um final grande para esta edição da Festa do Cinema Francês (na sessão de encerramento foi re-apresentado o filme Benda Bilili que já aqui tratamos).
Océans Océans é um filme documental genial. Na fronteira entre o documentário e o "filme de arte", é um espaço onde a estética e a ética (a reflexão final sobre a pesca de arrastão e a poluição) se cruzam. Océans é provavelmente o melhor herdeiro do trabalho de Jacques Cousteau e o melhor que vi sobre os oceanos e a vida marinha. Segundo um dos realizadores que esteve presente na Festa do Cinema Francês para o apresentar, Océans é o fruto de sete anos de labor com 400 pessoas envolvidas, para além dos meios extraordinários que tiveram de ser utilizados. "É um Océans de vida, força, de poesia. Um grito de amor filmado", citando a crítica de Le Point transcrita no programa da FCF. Océans é um filme de arte documental realizado por Jacques Perrin e Jacques Cluzaud, terminado em 2010.
Benda Bilili! Este documentário de 2010, realizado por Florent de la Tullaye e Renaud Barret, apresentado em Portugal na Festa do Cinema Francês, conta-nos a história extraordinária de um grupo de paraplégicos, e outros deficientes motores, que das ruas de Kinshasa passou aos palcos dos grandes festivais europeus. Os realizadores foram também os produtores do primeiro album dos Benda Bilili e, há que dizê-lo, obreiros do seu enorme sucesso. É um fantástico documentário que nos dá conta da França no seu melhor. A música dos Benda Bilili, tocada com materiais da rua transformados em instrumentos musicais misturados com instrumentos convencionais, é uma música com impacto, ritmo e musicalidade. Os Benda Bilili são um caso impressionante que nos mostra que a música pode salvar, se se cruzar com gente de boa vontade. Há que agradecer aos realizadores que fizeram não só o documentário, mas criaram as condições para o sucesso do grupo. Bravo!
Des hommes et des dieux Este filme de Xavier Beauvois, apresentado ontem na Festa do Cinema Francês, é inspirado em factos reais de monges franceses que viviam e ajudavam a população mulçumana nas montanhas da Argélia, acabando reféns dos radicais islâmicos. Tenho de retirar o que em "O Concerto" disse do cinema francês actual, pelo menos em parte, porque este trabalho possui uma enorme densidade humana, sem se perder numa esquizofrenia de abstração, muita vezes fútil e pretensiosa, que afasta o "grande público". (o objectivo do cinema, e da arte em geral, pode não ser ganhar o "grande público", mas também não pode ser afastá-lo só para ser de "élite", o que nada mais é que o cúmulo da futilidade, da superficialidade e da rendição à aparência) Trata-se de um excelente trabalho que nos remete para os problemas "reais" do nosso mundo globalizado, sendo por outro lado um interessante documento sobre a vida daqueles que se entregam de corpo...
O concerto Este filme, apresentado na Festa do Cinema Francês, no passado dia 7, é uma interessante paródia ao drama que muitos artistas russos viveram, e continuam a viver. Dos ministros mafiosos, ás descargas de metralhadora, ao "desenrasca" das pessoas - neste caso artistas colocados na "lista negra" - para sobreviverem no país dos "oligarcas", de tudo temos um pouco. Há algo no entanto que convém esclarecer: em nenhuma (nenhuma) situação um concerto daqueles poderia ser apresentado sem ensaios, por mais talentosos que sejam os artistas. De resto os russos são dos artistas que mais, e com mais metodologia, trabalham. Melhor: o concerto, sem ensaios, seria até ao final como começou. E não aconteceria o "milagre"... Foi um filme divertido, ainda que por vezes a puxar para o "lamechas", que valeu a pena ser visto. Mas também é um filme que denota a total desorientação do cinema francês contemporâneo. Tudo neste trabalho foi inspirado e...