Mário Mendes versus Ana Sofia Magalhães
As encomendas chegam de meia em meia hora. Coroas fúnebres, enormes, com a mensagem "Repousa em paz". Vasco Pereira está no trabalho a ver o desfile de coroas e não percebe por que razão aparece simultaneamente como destinatário e remetente das flores que anunciam a morte. Nos dias anteriores, colegas de trabalho, vizinhos e familiares receberam cartas e emails anónimos, que inventavam ora que tinha sida, ora que era criminoso, ora que era homossexual.
O carro de Vasco foi riscado, as paredes do prédio pintadas. Os bombeiros apareciam dizendo ter sido chamados para uma emergência naquela morada, os carros funerários de várias agências batiam à porta. O telemóvel continuava a receber chamadas e mensagens com ameaças, apesar de ter trocado de número várias vezes. Quem ligava sabia onde estava, que carro conduzia, o que tinha vestido, as horas das rotinas diárias e o trajecto que fazia todos os dias entre casa e o trabalho. O pai, Domingos Pereira, militar, pediu a passagem à reserva e passou a acompanhar o filho 24 horas por dia, programando diariamente um percurso diferente entre o apartamento e o emprego. A mãe, Maria Pereira, entrou em depressão. Vasco tinha medo de sair à rua. Hoje, não só ainda tem todas as horas e datas na cabeça - de acontecimentos passados entre 2004 e 2008 - como sabe de cor as matrículas dos carros que o perseguiram.
O inferno de Vasco começou a 8 de Agosto de 2007. Regressou de uma viagem decidido a não atender mais chamadas de Ana Sofia Sá Magalhães, a loira de olhos azuis e sotaque de Cascais que tinha conhecido na internet. O telemóvel tinha dezenas de chamadas não atendidas e 120 mensagens escritas por ler. Vasco atendeu um telefonema de Francisco, o irmão da Ana com sotaque alentejano, e foi ameaçado por andar a ignorá-la e avisado de que ela iria suicidar-se "por sua causa". Farto da relação à distância, Vasco soltou "olhe, que se mate" e desligou o telemóvel. A partir daí, a perseguição que baralhava floristas, bombeiros e agências funerárias começou.
...
O julgamento que amanhã continua no Campus da Justiça, em Lisboa, senta no banco dos réus outras nove pessoas: detectives privados, agentes da PSP, inspectores da Polícia Judiciária (PJ) e o funcionário de uma empresa telefónica. Mário Mendes contratava detectives privados, para que vigiassem e seguissem aqueles homens, os seus amigos e família. E, por sua vez, estes detectives pediam ajuda aos restantes arguidos neste processo para conhecerem detalhes da vida pessoal das vítimas e dos seus familiares. No final, o professor recebia relatórios detalhados, que incluíam fotografias: "Dizia que sabia todos os pormenores da nossa vida, e era verdade, sabia o que vestíamos, o que fazíamos, tudo. As ameaças aumentavam de tom, a dada altura disse-me ao telefone que tinha um exército de rafeiros para nos perseguir, chegou a ameaçar raptar o meu filho, tínhamos muito medo", contou o pai de Vasco ao colectivo de juízes.
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Mário Mendes foi detido na casa do pai, em Évora. Um agente da PSP já o tinha surpreendido antes, quando este se preparava para despejar dois copos de tinta na fachada do prédio de Vasco, em Lisboa. Olhou-o nos olhos, mas quando o professor desatou a correr, o agente foi traído pelos sapatos de vela. Os atacadores soltaram-se e Mário Mendes fugiu. ionline.pt
As encomendas chegam de meia em meia hora. Coroas fúnebres, enormes, com a mensagem "Repousa em paz". Vasco Pereira está no trabalho a ver o desfile de coroas e não percebe por que razão aparece simultaneamente como destinatário e remetente das flores que anunciam a morte. Nos dias anteriores, colegas de trabalho, vizinhos e familiares receberam cartas e emails anónimos, que inventavam ora que tinha sida, ora que era criminoso, ora que era homossexual.
O carro de Vasco foi riscado, as paredes do prédio pintadas. Os bombeiros apareciam dizendo ter sido chamados para uma emergência naquela morada, os carros funerários de várias agências batiam à porta. O telemóvel continuava a receber chamadas e mensagens com ameaças, apesar de ter trocado de número várias vezes. Quem ligava sabia onde estava, que carro conduzia, o que tinha vestido, as horas das rotinas diárias e o trajecto que fazia todos os dias entre casa e o trabalho. O pai, Domingos Pereira, militar, pediu a passagem à reserva e passou a acompanhar o filho 24 horas por dia, programando diariamente um percurso diferente entre o apartamento e o emprego. A mãe, Maria Pereira, entrou em depressão. Vasco tinha medo de sair à rua. Hoje, não só ainda tem todas as horas e datas na cabeça - de acontecimentos passados entre 2004 e 2008 - como sabe de cor as matrículas dos carros que o perseguiram.
O inferno de Vasco começou a 8 de Agosto de 2007. Regressou de uma viagem decidido a não atender mais chamadas de Ana Sofia Sá Magalhães, a loira de olhos azuis e sotaque de Cascais que tinha conhecido na internet. O telemóvel tinha dezenas de chamadas não atendidas e 120 mensagens escritas por ler. Vasco atendeu um telefonema de Francisco, o irmão da Ana com sotaque alentejano, e foi ameaçado por andar a ignorá-la e avisado de que ela iria suicidar-se "por sua causa". Farto da relação à distância, Vasco soltou "olhe, que se mate" e desligou o telemóvel. A partir daí, a perseguição que baralhava floristas, bombeiros e agências funerárias começou.
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O julgamento que amanhã continua no Campus da Justiça, em Lisboa, senta no banco dos réus outras nove pessoas: detectives privados, agentes da PSP, inspectores da Polícia Judiciária (PJ) e o funcionário de uma empresa telefónica. Mário Mendes contratava detectives privados, para que vigiassem e seguissem aqueles homens, os seus amigos e família. E, por sua vez, estes detectives pediam ajuda aos restantes arguidos neste processo para conhecerem detalhes da vida pessoal das vítimas e dos seus familiares. No final, o professor recebia relatórios detalhados, que incluíam fotografias: "Dizia que sabia todos os pormenores da nossa vida, e era verdade, sabia o que vestíamos, o que fazíamos, tudo. As ameaças aumentavam de tom, a dada altura disse-me ao telefone que tinha um exército de rafeiros para nos perseguir, chegou a ameaçar raptar o meu filho, tínhamos muito medo", contou o pai de Vasco ao colectivo de juízes.
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Mário Mendes foi detido na casa do pai, em Évora. Um agente da PSP já o tinha surpreendido antes, quando este se preparava para despejar dois copos de tinta na fachada do prédio de Vasco, em Lisboa. Olhou-o nos olhos, mas quando o professor desatou a correr, o agente foi traído pelos sapatos de vela. Os atacadores soltaram-se e Mário Mendes fugiu. ionline.pt