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Assegurar a transmissão de conhecimentos

NC – A nossa escola deveria assegurar a transmissão de conhecimentos e, às vezes, o que se passa é que, com pretextos muito grandiosos, de criar cidadãos críticos, jovens cientistas, escritores activos, eleitores activos, com esses slogans grandiosos, esquece-se aquilo que é fundamental na escola, que é transmitir conhecimentos básicos. Como é que se pode criar um cidadão crítico se o cidadão tem dificuldade em ler o jornal, como se passa com muitos jovens ao saírem do ensino obrigatório? Como é que se pode criar um cidadão activo se ele tem dificuldade em fazer coisas simples? Como é que se pode criar um cidadão consciente, se esse cidadão não sabe nada de História de Portugal? Ou da História do Mundo? Nós deveríamos preocupar-nos que a Escola tivesse mais exigência, transmitisse os conteúdos fundamentais aos jovens.

E – Estão muito baixos, os níveis de exigência?

NC – Estão baixíssimos, são extraordinariamente baixos. Há pouco tempo, na prova intermédia de Físico-química do 11.º ano, lançada pelo Ministério da Educação, uma das questões era simplesmente: transcreve do texto ao lado o comentário sobre o electromagnetismo. Chegámos a este ponto: no 11.º ano, quando os alunos deveriam saber muito bem o que é electricidade, o que é magnetismo, electromagnetismo, transcreve-se de um texto o que é. Ou provas do 6.º ano, em Matemática, em que se pede aos jovens para dividirem 8 por 4. Como é que é possível isto acontecer? Isto é uma acção concertada que, objectivamente, está a desvalorizar a escola. Uma acção concertada da parte duma série de pessoas, ditas teóricas de educação, que justificam que estas coisas se passem, por parte de um grupo de pessoas que controlam o Ministério e os departamentos de educação e que, no fundo, sabem muito pouco sobre educação, estão muito desactualizados e estão muito ideologizados.

E – É uma questão pedagógica ou é uma questão para atingir números?

NC – É tudo, casam-se as duas coisas. As pessoas que defendem conceitos de educação ultrapassados - como seja este conceito de que os conteúdos não interessam, o que interessa é ser cidadão crítico, etc, conceitos ultrapassados pela Ciência e pela Psicologia Cognitiva – casam-se com um Ministério que quer mostrar números bons onde eles não existem. Portanto, se os exames são cada vez mais fáceis, isso convém a um Ministério da Educação que quer mostrar resultados bons no interior e no exterior, e encontra uma boa justificação nos teóricos da educação, que acham que os exames fáceis é que devem ser feitos. Nós estamos numa situação dramática na Educação e temos que ultrapassar isto.

E – O facilitismo resulta de não se saber lidar com o insucesso?

NC – Nós temos de lidar com o insucesso combatendo o insucesso. E nós temos lidado com o insucesso escolar, disfarçando o insucesso, fazendo exames cada vez mais simples, escondendo a realidade da educação. Acho que deveríamos lidar de maneira completamente oposta, que é mostrar o insucesso, mostrar o que é que pode ser feito e ser exigente. O problema da escola não ser exigente é que degrada tudo por aí abaixo. Quando o Ministério da Educação pergunta aos alunos do 6º ano de escolaridade quanto é que é 8 a dividir por quatro, está a dar a mensagem às escolas, aos professores, aos pais e aos alunos de que essa é que é a altura certa para saber quanto é que é 8 a dividir por 4, quando devia ser no 2.º ou no 3.º ano de escolaridade. Essa falta de exigência que existe na Escola é pegada de cima, e isso é que é gravíssimo. É que os Governos e ministros que nos temos tido têm feito este estilo de degradação da escola. (excerto da entrevista a Nuno Crato, em educaraeducacao.blogspot.com)

Nota 1: penso que o facto de todos os ministros da educação e/ou do ensino superior serem professores do mesmo ensino superior leva a que não haja reformas substanciais a este nível porque todos desejam manter o muy confortável status quo. Desde que passam a associados, os professores do superior podem dormir descansados e deixar de se preocupar com investigação, inovação e em alguns casos, não assim tão raros, mera actualização, o que contraria tudo o que um professor do ensino superior deveria ser. A divisão da carreira em professores e investigadores teve um efeito perverso pois induz na ideia que os professores não são investigadores, quando um professor do ensino superior deve ser concomitantemente um investigador e um inovador. Todos os Nobel da economia são professores no activo ou professores aposentados e isso não os impediu de serem altamente inovadores. Há investigadores em Portugal, na área das Cc Sociais e Humanas, nomeadamente, contra as quais não tenho rigorosamente nada, antes pelo contrário, assinale-se, que o único livro que publicaram foi a tese de doutoramento (e nessa altura provavelmente não eram investigadores profissionais). Há publicações em Portugal que quase ninguém lê e que na prática só servem para alguns investigadores publicarem os seus artigos, de forma a mostrarem trabalho. Claro que tudo isto passa ao lado da sociedade portuguesa... Aliás, a ninguém do ensino superior, ou das carreiras da investigação, interessa criar um debate sério à volta destas questões.

Nota 2: deveria ser dada uma solução para os professores do ensino básico e secundário que sofrem de depressão, especialmente aqueles que sofreram bullying prolongado por parte de alunos (e quiçá colegas...). No mínimo dos mínimos estes casos de depressão deveriam ser considerados doença profissional. No "médio" estes professores deveriam receber uma indeminização equivalente à remuneração no topo da carreira (tendo em conta que no seu estado de saúde normal poderiam adquirir habilitações e qualificações para para atingirem o referido topo da carreira, ou adquirirem habilitações e qualificações para mudarem para outras carreiras melhor remuneradas), tendo como referência a totalidade dos anos da esperança média de vida. No "justo", para além da indeminização anteriormente referida deveriam receber uma indeminização complementar para acompanhamento vitalício por parte de médicos especialistas, psicólogos e/ou psicanalistas (pessoalmente não aconselharia, de todo, psicólogos a "deprimidos crónicos", excepto se forem psicanalístas), e deslocações, dado que alguns dos pacientes "deprimidos crónicos" necessitam frequentemente de mudar de ambiente e das pessoas que os rodeiam, dada a natureza da sua patologia e causas na origem da mesma.

No ensino superior os profs têm poder e ninguém se atreve a meter-se com eles, por isso virtualmente não deveriam existir casos de depressão por bullying ou maus tratos. No entanto, pessoalmente conheço um caso de um professor genial que foi totalmente ostracizado pela maioria dos colegas do seu departamento e pela instituição, ou pelo menos por parte da instituição, e nitidamente entrou em depressão (ainda que não tenha abordado especificamente esse assunto com ele). A instituição chama-se ISCTE (se quiserem processem-me - já que isso em Portugal está na moda - pois terei todo o prazer em apresentar a situação publicamente e em tribunal, assim como outros casos).

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