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Da culpa

«Nas minhas aulas de ética costumo apresentar o seguinte exemplo prático (…). Suponhamos uma mulher cujo marido empreende uma larga viagem. A mulher aproveita essa ausência para se juntar com um amante. Inesperadamente, o marido desconfiado anuncia o seu regressa e exige que a esposa o espere no aeroporto. Para chegar ao aeroporto a mulher tem de atravessar um bosque onde se esconde um terrível assassino. Assustada, pede ao seu amante que a acompanhe, mas este nega-se porque não deseja confrontar-se com o marido. Pede então protecção ao único guarda que há na aldeia, que também lhe diz que não pode ir com ela, pois tem de atender com zelo idêntico ao resto dos seus concidadãos. Recorre a vários vizinhos e vizinhas obtendo apenas recusas, umas por medo e outras por comodismo. Por fim, empreende a viagem sozinha e é assassinada pelo criminoso do bosque. Pergunta: quem é o responsável pela sua morte? Costumo obter respostas para todos os gostos (…). Existem os que culpam a intransigência do marido, a covardia do amante, o pouco profissionalismo do guarda, o mau funcionamento das instituições que nos prometem segurança, a falta de solidariedade dos vizinhos ou até a má consciência da assassinada… Poucos costumam responder o óbvio: que o Culpado (...), o responsável principal do crime, é o próprio assassino que mata.»

Fernando Savater, As perguntas da vida, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999, pp. 155-156.


O canídeo não tem consciência e logo não tem culpa

Oh depois… Na nossa consciência mal educada no politicamente correcto nós não consideramos o facínora como pertencente à Humanidade. Classificamo-lo mais na conta do cão raivoso, os outros mangas é que dizem “ele é um ser humano” quando ele não tem as características morais dos humanos. Ora o dito canídeo não tem consciência e logo não tem culpa. Quem atravessa uma floresta sabendo que há lá um facínora (ou um cão raivoso) está a por-se deliberadamente em perigo e quem se põe deliberadamente em perigo contribui deliberadamente para o mal que possa acontecer-lhe. Nós temos pouca tolerância para quem se mete em zonas alfurjas onde pululam esses seres que tanto carinho suscitam aos serviços sociais e que, além de nos custarem nos impostos, ainda nos dão uma naifada.

Errado: os cães raivosos são levados pela "rede" (era assim que se designava nos meus tempos de criança) e executados.


E aqui quem tem a culpa? *

O Exército sírio tem levado a cabo desde domingo uma acção em Hama, cidade central para os protestos contra o regime, com tanques na cidade, snipers nos telhados, e dezenas de mortos por dia. O modus operandi dos militares é semelhante ao usado noutras cidades que viram os seus protestos ser brutalmente reprimidos: um cerco, comunicações cortadas, ataques armados com tanques e atiradores furtivos. Habitantes de Hama dizem que começa a escassear comida na cidade. publico.pt

* os assassinos no poder, os iranianos que suportam e apoiam os assassinos (eles, iranianos do poder, também assassinos), ou a "comunidade internacional" que não intervém e que dificilmente quererá e poderá intervir? Mas há uma hipótese muito fixe, na linha do pensamento do texto acima enunciado ("quem se põe deliberadamente em perigo contribui deliberadamente para o mal que possa acontecer-lhe"): a culpa é dos manifestantes que deveriam saber que opondo-se ao regime poderiam acabar abatidos.

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Da Crise e dos Cortes

A Caixa Geral de Aposentações, a "segurança social" dos funcionários públicos, também paga pensões a reformados do setor privado, muitas delas milionárias.   No próximo mês de maio, por exemplo, começa a pagar uma reforma de 5000 euros a um dirigente de um externato particular, ao abrigo de uma lei antiga feita aprovar pelo então primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva. De acordo com a lista dos novos aposentados em maio, um ex-diretor pedagógico do Externato Marquês de Pombal Ensinus ficará com uma pensão de 5030 euros mensais brutos. Este estabelecimento pertence ao grupo Lusófona. jn.pt