"Deixar a zona euro seria cometer um suicídio"
Em entrevista ao PÚBLICO, Yannis Stournaras, director-geral de um dos mais reputados think tanks de Atenas, a Foundation for Economic & Industrial Research, mostra-se convicto de que o executivo de Papandreou vai aplicar as novas medidas, com ou sem consenso político.
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Sei que metade dos ministros não acredita neste plano, mas que alternativas têm? Não acreditar não basta. Têm alternativas? Têm 110 mil milhões de euros para pôr em cima da mesa? Não gosto de discussões teóricas. Também não gosto destas medidas, mas não tenho nenhuma solução alternativa.
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Se o Governo não conseguir implementar estas medidas, encara o cenário da reestruturação da dívida como provável?
Seria um erro enorme. É claro que assumo, quando lhe chamo um erro, que os outros países europeus também não querem ir por esse caminho. Se quiserem, será certamente isso que acontecerá. Não temos alternativa senão confiar na ajuda dos nossos pares. Mas, quanto a mim, para estes três países em crise, a solução são os Brady Bonds [utilizados nos anos 80, na América Latina, e que permitiram aos países em dificuldades a emissão de dívida a longo prazo a taxas mais reduzidas, com a garantia do Tesouro dos Estados Unidos]. O que é preciso é conseguirmos garantias de países como a Alemanha, de modo a conseguirmos comprar de volta a nossa dívida ao mercado secundário, a um preço mais reduzido. Para incentivar os investidores tem de haver outras garantias, que não as gregas, irlandesas ou portuguesas. É pena ter de dizer isto, mas esta é a dura realidade.
Estes três países deveriam cooperar mais para terem mais força junto dos seus pares e dos credores?
Absolutamente. Quando estive em Portugal há três semanas disse-lhes isso mesmo. Deveríamos fazer um lobby e ir pedir a Durão Barroso os fundos estruturais que não estão a ser utilizados. Precisamos desse dinheiro agora e não daqui a três anos.
A pressão que está a ser feita sobre a Grécia resulta de falhas no cumprimento de algumas metas. Onde é que o Governo errou?
Algumas medidas resultaram. O grande falhanço foi na cobrança de impostos. E agora chegámos a um momento crítico porque nada fizemos durante muitos meses. Houve complacência.
A Nova Democracia tem vindo a dizer que as medidas delineadas para a Grécia foram muito mais duras do que as criadas para Portugal. Concorda?
Isso não é justo, porque a situação no sector público grego é muito pior do que em Portugal. Além disso, vi os dois memorandos e não são assim tão diferentes. Pode dizer-se que, em Portugal, não impuseram medidas tão drásticas nos salários e nas pensões, mas o défice não era tão elevado e já havia reformas estruturais que estavam a ser aplicadas antes da chegada da troika.
Que futuro antevê para a Grécia?
Tudo depende da vinda de todas as tranches do empréstimo. Estamos muito dependentes da ajuda externa. Sem a ajuda externa o futuro da Grécia será inconcebível, porque só restaria o colapso. Por isso, espero que esta espécie de jogo de prisioneiros, em que os europeus dizem que emprestam dinheiro aos gregos se tomarem as medidas e os gregos dizem que tomam medidas se receberem o empréstimo dos europeus, consigamos evitar um acidente, do qual não recuperaríamos. Nem nós, nem a Europa.
Teme que este tipo de jogo se repita sempre que estiverem prestes a receber uma nova tranche?
Não. E isso não aconteceu antes porque, durante o último ano, o acordo foi cumprido. Foi este ano que o Governo perdeu terreno, nos impostos e também nas privatizações.
Não acredita, portanto, que a Grécia poderá ter de deixar a zona euro?
Não, nada disso. Cometemos erros, é certo. Mas deixar a zona euro seria cometer um suicídio.
Que consequências traria?
A dívida pública, que está em euros, subiria exponencialmente, em vez de reduzir. Os bancos iriam entrar imediatamente em colapso, porque os passivos ainda estariam em euros, mas os activos estariam em dracmas, completamente desvalorizados. O sistema bancário grego iria simplesmente evaporar-se. Todos os que fazem estas propostas, argumentando que se pode tirar partido da desvalorização do dracma, estão errados. Esquecem-se que a economia desapareceria. publico.pt
Em entrevista ao PÚBLICO, Yannis Stournaras, director-geral de um dos mais reputados think tanks de Atenas, a Foundation for Economic & Industrial Research, mostra-se convicto de que o executivo de Papandreou vai aplicar as novas medidas, com ou sem consenso político.
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Sei que metade dos ministros não acredita neste plano, mas que alternativas têm? Não acreditar não basta. Têm alternativas? Têm 110 mil milhões de euros para pôr em cima da mesa? Não gosto de discussões teóricas. Também não gosto destas medidas, mas não tenho nenhuma solução alternativa.
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Se o Governo não conseguir implementar estas medidas, encara o cenário da reestruturação da dívida como provável?
Seria um erro enorme. É claro que assumo, quando lhe chamo um erro, que os outros países europeus também não querem ir por esse caminho. Se quiserem, será certamente isso que acontecerá. Não temos alternativa senão confiar na ajuda dos nossos pares. Mas, quanto a mim, para estes três países em crise, a solução são os Brady Bonds [utilizados nos anos 80, na América Latina, e que permitiram aos países em dificuldades a emissão de dívida a longo prazo a taxas mais reduzidas, com a garantia do Tesouro dos Estados Unidos]. O que é preciso é conseguirmos garantias de países como a Alemanha, de modo a conseguirmos comprar de volta a nossa dívida ao mercado secundário, a um preço mais reduzido. Para incentivar os investidores tem de haver outras garantias, que não as gregas, irlandesas ou portuguesas. É pena ter de dizer isto, mas esta é a dura realidade.
Estes três países deveriam cooperar mais para terem mais força junto dos seus pares e dos credores?
Absolutamente. Quando estive em Portugal há três semanas disse-lhes isso mesmo. Deveríamos fazer um lobby e ir pedir a Durão Barroso os fundos estruturais que não estão a ser utilizados. Precisamos desse dinheiro agora e não daqui a três anos.
A pressão que está a ser feita sobre a Grécia resulta de falhas no cumprimento de algumas metas. Onde é que o Governo errou?
Algumas medidas resultaram. O grande falhanço foi na cobrança de impostos. E agora chegámos a um momento crítico porque nada fizemos durante muitos meses. Houve complacência.
A Nova Democracia tem vindo a dizer que as medidas delineadas para a Grécia foram muito mais duras do que as criadas para Portugal. Concorda?
Isso não é justo, porque a situação no sector público grego é muito pior do que em Portugal. Além disso, vi os dois memorandos e não são assim tão diferentes. Pode dizer-se que, em Portugal, não impuseram medidas tão drásticas nos salários e nas pensões, mas o défice não era tão elevado e já havia reformas estruturais que estavam a ser aplicadas antes da chegada da troika.
Que futuro antevê para a Grécia?
Tudo depende da vinda de todas as tranches do empréstimo. Estamos muito dependentes da ajuda externa. Sem a ajuda externa o futuro da Grécia será inconcebível, porque só restaria o colapso. Por isso, espero que esta espécie de jogo de prisioneiros, em que os europeus dizem que emprestam dinheiro aos gregos se tomarem as medidas e os gregos dizem que tomam medidas se receberem o empréstimo dos europeus, consigamos evitar um acidente, do qual não recuperaríamos. Nem nós, nem a Europa.
Teme que este tipo de jogo se repita sempre que estiverem prestes a receber uma nova tranche?
Não. E isso não aconteceu antes porque, durante o último ano, o acordo foi cumprido. Foi este ano que o Governo perdeu terreno, nos impostos e também nas privatizações.
Não acredita, portanto, que a Grécia poderá ter de deixar a zona euro?
Não, nada disso. Cometemos erros, é certo. Mas deixar a zona euro seria cometer um suicídio.
Que consequências traria?
A dívida pública, que está em euros, subiria exponencialmente, em vez de reduzir. Os bancos iriam entrar imediatamente em colapso, porque os passivos ainda estariam em euros, mas os activos estariam em dracmas, completamente desvalorizados. O sistema bancário grego iria simplesmente evaporar-se. Todos os que fazem estas propostas, argumentando que se pode tirar partido da desvalorização do dracma, estão errados. Esquecem-se que a economia desapareceria. publico.pt