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SATSUO YAMAMOTO (*)

em colaboração com a Japan Foundation e a Embaixada do Japão em Portugal

Satsuo Yamamoto (1910-1983) é um nome a reter quando se fala de cinema japonês dada a importância da sua heteróclita filmografia no contexto da história do cinema nipónico, enquanto responsável por uma vasta e interessante obra, que se estende desde a década de 30 ao início dos anos 80. Nascido em 1910, Yamamoto começou a trabalhar para os importantes estúdios Shochiku em 1933, estreando-se como assistente de Mikio Naruse. Mais tarde mudou para os estúdios PCL, que dariam origem aos proeminentes estúdios Toho, nos quais assumiu pela primeira vez o papel de realizador em 1937. Depois de uma passagem pela China, onde esteve mobilizado durante a guerra, regressou à sua produtora de origem, para a qual realizou o polémico SENSÔ TO HEIWA (1947), filme centrado na violenta experiência que acabara de viver. No ano seguinte, na sequência de uma greve, foi convidado a abandonar os estúdios Toho e associou-se a um grupo de outros cineastas com ligações ao partido comunista, realizando, já num regime independente, um conjunto de filmes fortemente conotados com um realismo social assumidamente de esquerda. BORYOKU NO MACHI e NIGURUMA NO UTA são dois desses belíssimos retratos dos problemas quotidianos e das aspirações do povo japonês no pós-guerra. Alguns anos depois Yamamoto dirigiu SHINOBI NO MONO e a sua sequela, longas-metragens mais populares, que se revestiram de grande sucesso comercial, a que se seguiram obras-primas como SHIROI KYOTO e BOTAN DORO. KINKANSHOKU e outros dos seus trabalhos mais épicos valeram-lhe a designação de “Cecil B. DeMille vermelho.”

Face à extensão da obra de Yamamoto, que abrange quase cinquenta filmes, esta breve retrospectiva centra-se nalguns dos títulos das suas décadas mais produtivas – os anos 50 e 60 –, que congregam tanto os famosos “filmes de tese” como vários filmes de grande público realizados ao serviço de algumas das maiores casas de produção japonesas, testemunhando assim a pluralidade de géneros e formatos convocados pelo cinema de Yamamoto. Um autor a descobrir no mês de Dezembro.


WE CAN'T GO HOME AGAIN - INTEGRAL NICHOLAS RAY

Em 2011 Nicholas Ray (nascido Raymond Nicholas Kienzle, no Wisconsin) faria cem anos, e a data é o pretexto para voltar a uma retrospectiva integral da sua obra, num remake revisto e aumentado do histórico Ciclo organizado pela Cinemateca em 1985. A retrospectiva, que se concluirá em Janeiro de 2012 com a projecção da versão recentemente restaurada de WE CAN’T GO HOME AGAIN (o derradeiro filme realizado por Nicholas Ray), abre no dia 2 com a primeira apresentação em Portugal do filme de Susan Ray (a sua última mulher) sobre Nick, DON’T EXPECT TOO MUCH, estreado no último Festival de Cinema de Veneza, à semelhança da nova versão WE CAN’T GO HOME AGAIN. É o melhor preâmbulo possível para o Ciclo: centra-se no que designa pelo “tempestuoso romance de Ray com Hollywood”, e é um retrato da vida, do trabalho e da influência de Nick Ray, com recurso a testemunhos, imagens e documentos de arquivo inéditos. É com este filme que a retrospectiva arranca, seguindo-se a íntegra da obra de Ray, de THEY LIVE BY NIGHT (1949), o seu filme de estreia que nos confronta pela primeira vez com a marginalidade das suas personagens “nunca propriamente apresentadas a este mundo em que vivemos”, a LIGHTNING OVER WATER (1980), filme de Ray e Wenders ou só filme de Wim Wenders (as opiniões divergem), já em Janeiro. Neste mês, entre os primeiros, estão os incontornáveis IN A LONELY PLACE, JOHNNY GUITAR, REBEL WITHOUT A CAUSE (pelo qual foi nomeado para um Oscar de Melhor Realizador) ou BIGGER THAN LIFE. Mas, a par destas obras maiores, em Dezembro teremos ainda oportunidade de ver alguns dos seus filmes menos vistos como A WOMAN’S SECRET e HOT BLOOD, dois títulos que não são exibidos na Cinemateca precisamente desde a retrospectiva de 1985. O primeiro foi o filme que marcou o seu encontro com Gloria Grahame. Menosprezado pelo próprio Ray, que sempre disse ter sido obrigado a realizá-lo para satisfazer a RKO, A WOMAN’S SECRET revela muitas das qualidades que marcariam o seu trabalho futuro. O segundo, que tem no seu centro Jane Russell, uma “proposta” de Howard Hughes, se bem que tenha sido olhado de viés por grande parte da crítica, foi descrito por Jean-Luc Godard, um dos grandes admiradores da obra de Ray, como um filme “fantasticamente belo”.

Ao longo de toda a vida, sempre que lhe fizeram a sacramental pergunta sobre os filmes de que mais gostava, Ray incluiu IN A LONELY PLACE, a par de REBEL WITHOUT A CAUSE e THE LUSTY MEN. Frequentemente juntou-lhes THEY LIVE BY NIGHT e JOHNNY GUITAR. Como escreveu João Bénard da Costa a propósito de IN A LONELY PLACE (que começa por citar Bernard Eisenschitz, que dedicou a Ray uma das mais belas biografias que até hoje sobre ele foram escritas), em palavras que se podiam aplicar a todos ou quase todos os “rays”: “Filme ‘entre a espada e a parede’ como disse Eisenschitz, a um passo do abismo, do caos? É verdade. Mas nisso mesmo reside, como em todos os grandes filmes de Ray, o seu imenso fascínio. Uma só falha, ou um só excesso e toda a estrutura se desmoronaria, de tal modo se articula em torno do insólito, de tal modo são tão frágeis os seus alicerces.” Eis uma oportunidade única para rever a obra de um dos grandes nomes do cinema clássico de Hollywood, mas também de um dos seus maiores rebeldes.

NICK RAY: ECOS, DESCENDÊNCIAS E PROLONGAMENTOS

Os filmes de Nicholas Ray despertaram paixões e ele próprio, a sua figura, pelo seu percurso, pelo seu carisma, despertou paixões. Muitos cineastas (europeus, sobretudo) o citaram expressamente. Houve mesmo quem fosse ao encontro dele, caso consagrado de Wim Wenders, que o filmou por duas vezes. E em vários, de Jarmusch a Godard, de Fassbinder a Almodóvar, a influência de Ray fez-se sentir de variadas maneiras, mais declarada ou mais subrepticiamente, enquanto homenagem directa ou enquanto inspiração longínqua. Neste Ciclo paralelo à retrospectiva Nicholas Ray que iniciamos este mês, vamos então seguir, em filmes de outros cineastas, o seu rasto, os seus “ecos, descendências e prolongamentos”. (*) Cinemateca Portuguesa, Dezembro 2011

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