Bairro alto
"Baixava já o Sol no céu quando comecei a subir o emaranhado de vielas de terra batida que trepavam sinuosas para o Bairro Alto através das encostas a ocidente. Ao passar pelo meio do amontoado de barracas de madeira onde os mais pobres se consumiam numa vida de desencantada servidão, alguns rostos sujos observavam-me disfarçadamente como se fosse um espectáculo pouco habitual. Crianças cheias de moscas ao canto dos olhos faziam grande poeirada a correr atrás de galinhas e gatos. Um escravo africano enorme, preso pelo tornozelo a uma âncora enferrujada, fixou-me com o olhar intenso de um contador de histórias que visse passar uma das suas personagens. Reconheci nele alguma afinidade e saudei-o com um aceno de cabeça, mas ele voltou-me as costas como se eu fosse algum suspeito de um crime. Pairavam no ar os odores da humilhação e da raiva." Richard Zimler in O Último Cabalista de Lisboa
"Baixava já o Sol no céu quando comecei a subir o emaranhado de vielas de terra batida que trepavam sinuosas para o Bairro Alto através das encostas a ocidente. Ao passar pelo meio do amontoado de barracas de madeira onde os mais pobres se consumiam numa vida de desencantada servidão, alguns rostos sujos observavam-me disfarçadamente como se fosse um espectáculo pouco habitual. Crianças cheias de moscas ao canto dos olhos faziam grande poeirada a correr atrás de galinhas e gatos. Um escravo africano enorme, preso pelo tornozelo a uma âncora enferrujada, fixou-me com o olhar intenso de um contador de histórias que visse passar uma das suas personagens. Reconheci nele alguma afinidade e saudei-o com um aceno de cabeça, mas ele voltou-me as costas como se eu fosse algum suspeito de um crime. Pairavam no ar os odores da humilhação e da raiva." Richard Zimler in O Último Cabalista de Lisboa