Suicídios nas escolas
O professor de Música que se suicidou deixou uma nota dizendo que não podia suportar mais os insultos dos alunos.
Ao contrário do que algum senso comum acredita, o suicídio não é para os cobardes. Trata-se da coragem de alguém se atirar para o vazio, para o não retorno, não sabendo inclusivé a dose de sofrimento que experimentará antes de se encontrar com a morte.
Será possível que alguém se suicide "somente" devido aos insultos? Um psiquiatra-terapêuta veio a terreiro afirmar que não. Que haveriam "outras coisas".
Há sempre "outras coisas". Mas há uma "coisa", uma sequência "repetitiva e monótona" (como Freud classificava o sintoma) de uma "coisa", que pode conduzir ao acto de radicalidade. Esse acto poderia ter sido levar uma arma para a escola e cometer uma chacina, suicidando-se no final. Mas o professor decidiu "simplesmente" consumar o acto de afastamento radical que é o suicídio. (*)
É pena que o psiquiatra-terapêuta não se tivesse lembrado das últimas obras de Freud e da "pulsão de morte", que não é necessariamente a pulsão para a morte própria.
Ironicamente, se o professor tivesse levado a cabo um massacre antes de cometer suicídio, ninguém lhe teria chamado fraco e a causa do seu acto não seria posta em questão: o acto seria lido como a reacção causal e directa ao bullying de que era vítima.
Mas mais que não fosse o psiquiatra-terapêuta deveria ter assinalado o efeito destrutivo - virtualmente irreversível quando se tratam de situações que se arrastam no tempo - que o insulto tem na auto-confiança da vítima. A quebra substancial da auto-confiança pode destruir a estabilidade e, em última análise, a vida afectiva da vítima do insulto, quando ela existe, ou impedir que alguma vez venha a existir, condenando a vítima a uma solidão insuportável. Pode destruir a estrutura e a consistência do relacionamento familiar, quando este existe, e tem sempre consequências graves na estruturação afecto-cognitiva e no relacionamento social da vítima.
O funcionamento das escolas portuguesas, a "filosofia" do ensino em Portugal, tende a colocar as vítimas de insulto numa espécie de limbo, como se não fossem vítimas de nada, como se tudo estivesse normal. Quando abordam o assunto é para concluir que são necessárias "técnicas" e mais "pedagogia", sendo a vítima reduzida a um mero utensílio que não está a funcionar devidamente.
Estamos no domínio da atrocidade! Se em Portugal os sindicatos fossem "a sério" e existissem ONG's verdadeiramente independentes vocacionadas para a defesa dos direitos elementares, há muito que estes casos estariam no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, onde Portugal está habituado a perder, e há muito que a abordagem oficial seria outra.
Seguramente que haveria muitas "outras coisas", como dizia o psiquiatra-terapêuta. Há sempre muitas "outras coisas"... Para além das consequências evidentes acima referidas - regressando a um registo menos "psicologista" - o insulto permanente, previsível e insuportável pode ser a "coisa", a sequência imparável de uma "coisa", com o complemento da percepção da impotência para parar a "coisa", que pode levar ao acto de radicalidade (como aconteceu com o professor de Música e com o professor de Matemática). (**)
(*) no pólo oposto temos aquele que matou a mulher e a amante, mas, por casualidade, ao "suicidar-se", ficou gravemente ferido mas não morreu... E ainda teve o "impulso" de ligar para as emergências...
(**) um professor de Matemática cometeu suicídio por questões relacionadas directamente com o sistema de ensino português, de acordo com aquilo que o próprio escreveu na carta que deixou à esposa antes de se suicidar. Este caso veio a público graças a uma crónica que Santana Castilho escreveu no jornal Público.
A não esquecer: professores que acabaram por morrer no activo por obra e graça de Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da educação: "A posição da Ordem dos Médicos surge depois de, no último mês, terem sido noticiados dois casos de professores, doentes com leucemia e cancro na laringe, que foram reenviados de volta às escolas onde leccionavam pelas juntas médicas que os avaliaram. Os professores acabaram por morrer no activo." 05.07.2007 - 09:01 Por Lusa, em publico.pt
Nota: eu tenho quase a certeza que os professores que se suicidaram não foram devidamente apoiados não só pela escola (isto é, pelos responsáveis) como pelos colegas. Se as pessoas tivessem dignidade não permitiriam que certas situações de bullying institucional acontecessem. Se as pessoas tivessem coluna vertebral Portugal seria um país diferente.
O professor de Música que se suicidou deixou uma nota dizendo que não podia suportar mais os insultos dos alunos.
Ao contrário do que algum senso comum acredita, o suicídio não é para os cobardes. Trata-se da coragem de alguém se atirar para o vazio, para o não retorno, não sabendo inclusivé a dose de sofrimento que experimentará antes de se encontrar com a morte.
Será possível que alguém se suicide "somente" devido aos insultos? Um psiquiatra-terapêuta veio a terreiro afirmar que não. Que haveriam "outras coisas".
Há sempre "outras coisas". Mas há uma "coisa", uma sequência "repetitiva e monótona" (como Freud classificava o sintoma) de uma "coisa", que pode conduzir ao acto de radicalidade. Esse acto poderia ter sido levar uma arma para a escola e cometer uma chacina, suicidando-se no final. Mas o professor decidiu "simplesmente" consumar o acto de afastamento radical que é o suicídio. (*)
É pena que o psiquiatra-terapêuta não se tivesse lembrado das últimas obras de Freud e da "pulsão de morte", que não é necessariamente a pulsão para a morte própria.
Ironicamente, se o professor tivesse levado a cabo um massacre antes de cometer suicídio, ninguém lhe teria chamado fraco e a causa do seu acto não seria posta em questão: o acto seria lido como a reacção causal e directa ao bullying de que era vítima.
Mas mais que não fosse o psiquiatra-terapêuta deveria ter assinalado o efeito destrutivo - virtualmente irreversível quando se tratam de situações que se arrastam no tempo - que o insulto tem na auto-confiança da vítima. A quebra substancial da auto-confiança pode destruir a estabilidade e, em última análise, a vida afectiva da vítima do insulto, quando ela existe, ou impedir que alguma vez venha a existir, condenando a vítima a uma solidão insuportável. Pode destruir a estrutura e a consistência do relacionamento familiar, quando este existe, e tem sempre consequências graves na estruturação afecto-cognitiva e no relacionamento social da vítima.
O funcionamento das escolas portuguesas, a "filosofia" do ensino em Portugal, tende a colocar as vítimas de insulto numa espécie de limbo, como se não fossem vítimas de nada, como se tudo estivesse normal. Quando abordam o assunto é para concluir que são necessárias "técnicas" e mais "pedagogia", sendo a vítima reduzida a um mero utensílio que não está a funcionar devidamente.
Estamos no domínio da atrocidade! Se em Portugal os sindicatos fossem "a sério" e existissem ONG's verdadeiramente independentes vocacionadas para a defesa dos direitos elementares, há muito que estes casos estariam no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, onde Portugal está habituado a perder, e há muito que a abordagem oficial seria outra.
Seguramente que haveria muitas "outras coisas", como dizia o psiquiatra-terapêuta. Há sempre muitas "outras coisas"... Para além das consequências evidentes acima referidas - regressando a um registo menos "psicologista" - o insulto permanente, previsível e insuportável pode ser a "coisa", a sequência imparável de uma "coisa", com o complemento da percepção da impotência para parar a "coisa", que pode levar ao acto de radicalidade (como aconteceu com o professor de Música e com o professor de Matemática). (**)
(*) no pólo oposto temos aquele que matou a mulher e a amante, mas, por casualidade, ao "suicidar-se", ficou gravemente ferido mas não morreu... E ainda teve o "impulso" de ligar para as emergências...
(**) um professor de Matemática cometeu suicídio por questões relacionadas directamente com o sistema de ensino português, de acordo com aquilo que o próprio escreveu na carta que deixou à esposa antes de se suicidar. Este caso veio a público graças a uma crónica que Santana Castilho escreveu no jornal Público.
A não esquecer: professores que acabaram por morrer no activo por obra e graça de Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da educação: "A posição da Ordem dos Médicos surge depois de, no último mês, terem sido noticiados dois casos de professores, doentes com leucemia e cancro na laringe, que foram reenviados de volta às escolas onde leccionavam pelas juntas médicas que os avaliaram. Os professores acabaram por morrer no activo." 05.07.2007 - 09:01 Por Lusa, em publico.pt
Nota: eu tenho quase a certeza que os professores que se suicidaram não foram devidamente apoiados não só pela escola (isto é, pelos responsáveis) como pelos colegas. Se as pessoas tivessem dignidade não permitiriam que certas situações de bullying institucional acontecessem. Se as pessoas tivessem coluna vertebral Portugal seria um país diferente.