O problema
O que Brian Blackstone escreveu em relação aos têxteis em Portugal pode-se aplicar a praticamente todas as indústrias portuguesas: não existem marcas nacionais reconhecidas, e desejadas, internacionalmente.
Lembro-me de uma vez ter lido nos jornais sobre a indignação dos portugueses porque a Áustria rejeitou uma tecnologia nacional com o argumento de ser portuguesa.
Vindo dos austriacos poderia de facto ser racismo mas o problema é um pouco mais complexo. Portugal não tem nem tradições na área das tecnologias de ponta, nem empresas consolidades e solidificadas. Comprar "tecnologia portuguesa" pode significar, de um momento para o outro, ficarem sem assistência e sem actualização. Se fosse eu a decidir, lamento muito, também teria rejeitado a proposta portuguesa.
Tome-se o exemplo espanhol: a SEAT. Os espanhóis foram suficientemente espertos para perceberem que um carro espanhol não vingaria no mercado internacional (nem provavelmente nacional...). Então pediram à VW para lhes fornecer o motor e "limitaram-se" ao design (que por sua vez nem sempre é "espanhol") e à carroçaria e interiores. Assim se criou uma marca relativamente reconhecida. Qual o erro da SEAT? O erro é a pretensão de quererem algum dia rivalizar com o seu modelo: a VW. Não terão hipótese nem agora nem daqui a mil anos. A SEAT deveria oferecer preços substancialmente mais baixos que a VW já que por pouco mais compra-se o "autêntico". Este erro prende-se com a mentalidade espanhola: eles acreditam piamente serem tão bons como os melhores. O problema não é serem ou não serem: o problema é que ninguém acredita que eles sejam tão bons como os melhores. Possivelmente as pessoas estão correctas ao não acreditarem...
Vamos à Zara. No início ninguém sabia exactamente se a Zara era espanhola ou italiana e isso foi positivo para a Zara. Na indústria da moda ninguém encara a tecnologia como factor decisivo, excepto no que diz respeito ao vestuário especializado para desporto e montanha, nomeadamente. Por isso não teria tanto peso como no caso da SEAT o facto de se perceber desde o início que a Zara era espanhola. Como a Zara se apresentou convictamente como um local de definição de tendências, conseguiu impôr-se como marca de moda, relegando o facto de ser espanhola para segundo plano. Hoje a Zara é uma marca com reconhecimento e visibilidade universais.
Tomemos o caso do Alvarinho. Os portugueses acreditam que o Alvarinho é tipicamente português e que o espanhol não é tão bom... Estão errados. Em Espanha existem 260 marcas de Alvarinho (Albariño), umas excelentes, outras menos mal. Quando "lá fora" se fala em Alvarinho as pessoas associam com Espanha, não com Portugal.
Portanto existe aqui um problema dos empresários e gestores portugueses que não conseguem, de todo, avaliar os factores "psicológicos" que determinam a aceitação de um produto, por um lado. Por outro não tiveram (e não têm) estratégia para lançar, e consolidar, os produtos portugueses no mercado internacional.
Quando no estrangeiro se fala em Porto (ou Oporto...) a palavra que a seguir se ouve é Portugal. Quando a um arquitecto, em qualquer parte do mundo, se fala em Álvaro Siza, a palavra é a mesma.
Porque é que os empresários e gestores portugueses não conseguiram criar uma, ou mais, marcas de calçado reconhecidas e com grande visibilidade mundial (não estou a falar de marcas-fantasma como a Portland *), já que Portugal era conhecido como fabricante de calçado? A mesma questão para o vestuário e para a indústria de mobiliário.
Quando os empresários e gestores portugueses compreenderem as razões do seu insucesso em áreas onde Portugal veria facilmente as portas do mundo abrirem-se, talvez percebam as raízes da "crise depois da crise", já que se tratam de causas/sintomas estruturais, não conectados nem determinados pela crise financeira internacional.
* actualmente existe esta marca, sediada algures na América. Ou a que era inicialmente portuguesa foi vendida e é esta que podemos encontrar na internet, ou simplesmente desapareceu. Existem por aí umas marcas portuguesas de calçado que estão a tentar impôr-se no mercado internacional. Mas isso já não deveria ter sido feito há muitos anos? Nesta altura já não deveria Portugal ter marcas sólidas e prestigiadas internacionalmente?
Nota: evidentemente que tudo isto tem a ver com o "sistema educativo", mas isso seria outro (longo) post...
O que Brian Blackstone escreveu em relação aos têxteis em Portugal pode-se aplicar a praticamente todas as indústrias portuguesas: não existem marcas nacionais reconhecidas, e desejadas, internacionalmente.
Lembro-me de uma vez ter lido nos jornais sobre a indignação dos portugueses porque a Áustria rejeitou uma tecnologia nacional com o argumento de ser portuguesa.
Vindo dos austriacos poderia de facto ser racismo mas o problema é um pouco mais complexo. Portugal não tem nem tradições na área das tecnologias de ponta, nem empresas consolidades e solidificadas. Comprar "tecnologia portuguesa" pode significar, de um momento para o outro, ficarem sem assistência e sem actualização. Se fosse eu a decidir, lamento muito, também teria rejeitado a proposta portuguesa.
Tome-se o exemplo espanhol: a SEAT. Os espanhóis foram suficientemente espertos para perceberem que um carro espanhol não vingaria no mercado internacional (nem provavelmente nacional...). Então pediram à VW para lhes fornecer o motor e "limitaram-se" ao design (que por sua vez nem sempre é "espanhol") e à carroçaria e interiores. Assim se criou uma marca relativamente reconhecida. Qual o erro da SEAT? O erro é a pretensão de quererem algum dia rivalizar com o seu modelo: a VW. Não terão hipótese nem agora nem daqui a mil anos. A SEAT deveria oferecer preços substancialmente mais baixos que a VW já que por pouco mais compra-se o "autêntico". Este erro prende-se com a mentalidade espanhola: eles acreditam piamente serem tão bons como os melhores. O problema não é serem ou não serem: o problema é que ninguém acredita que eles sejam tão bons como os melhores. Possivelmente as pessoas estão correctas ao não acreditarem...
Vamos à Zara. No início ninguém sabia exactamente se a Zara era espanhola ou italiana e isso foi positivo para a Zara. Na indústria da moda ninguém encara a tecnologia como factor decisivo, excepto no que diz respeito ao vestuário especializado para desporto e montanha, nomeadamente. Por isso não teria tanto peso como no caso da SEAT o facto de se perceber desde o início que a Zara era espanhola. Como a Zara se apresentou convictamente como um local de definição de tendências, conseguiu impôr-se como marca de moda, relegando o facto de ser espanhola para segundo plano. Hoje a Zara é uma marca com reconhecimento e visibilidade universais.
Tomemos o caso do Alvarinho. Os portugueses acreditam que o Alvarinho é tipicamente português e que o espanhol não é tão bom... Estão errados. Em Espanha existem 260 marcas de Alvarinho (Albariño), umas excelentes, outras menos mal. Quando "lá fora" se fala em Alvarinho as pessoas associam com Espanha, não com Portugal.
Portanto existe aqui um problema dos empresários e gestores portugueses que não conseguem, de todo, avaliar os factores "psicológicos" que determinam a aceitação de um produto, por um lado. Por outro não tiveram (e não têm) estratégia para lançar, e consolidar, os produtos portugueses no mercado internacional.
Quando no estrangeiro se fala em Porto (ou Oporto...) a palavra que a seguir se ouve é Portugal. Quando a um arquitecto, em qualquer parte do mundo, se fala em Álvaro Siza, a palavra é a mesma.
Porque é que os empresários e gestores portugueses não conseguiram criar uma, ou mais, marcas de calçado reconhecidas e com grande visibilidade mundial (não estou a falar de marcas-fantasma como a Portland *), já que Portugal era conhecido como fabricante de calçado? A mesma questão para o vestuário e para a indústria de mobiliário.
Quando os empresários e gestores portugueses compreenderem as razões do seu insucesso em áreas onde Portugal veria facilmente as portas do mundo abrirem-se, talvez percebam as raízes da "crise depois da crise", já que se tratam de causas/sintomas estruturais, não conectados nem determinados pela crise financeira internacional.
* actualmente existe esta marca, sediada algures na América. Ou a que era inicialmente portuguesa foi vendida e é esta que podemos encontrar na internet, ou simplesmente desapareceu. Existem por aí umas marcas portuguesas de calçado que estão a tentar impôr-se no mercado internacional. Mas isso já não deveria ter sido feito há muitos anos? Nesta altura já não deveria Portugal ter marcas sólidas e prestigiadas internacionalmente?
Nota: evidentemente que tudo isto tem a ver com o "sistema educativo", mas isso seria outro (longo) post...