A INVEJA
Um famoso filósofo português contemporâneo fala no "mal de portugal" (o termo é meu) colocando a inveja como uma aspecto central para o diagnóstico desse mal.
O que é a inveja?
Uma categoria? Um estado de alma? Uma patologia?
O "grande filósofo" ao que dizem não explícita. Nem me espanta pois em filosofia criam-se universais com a mesma facilidade com que se muda de peúgas e por isso a projecção como universal do significante inveja não seria nada de novo do reino das filosofias.
O que é a inveja para "nós"?
Um sintoma.
Um sintoma de que?
Da nossa incompletude olhada a partir de um suposto outro (figura central da psicanálise post-lacaniana) ao qual atribuímos um suposto saber e uma suposta completude.
Invejá-mo-lo ao ponto de lhe desejarmos a morte. Não o invejamos por o invejar. Invejamo-lo porque olhamo-lo olhando-nos e gozando com a nossa incompletude. Ele que para nós é o outro que sabe e sabendo sabe e sabe de nós. Uma ficção que pode ter alguma projecção da ordem do universalizante no que toca a uma suposta "condição humana".
Em Portugal há mais inveja que nos outros lugares?
Não sei. O grande filósofo crê que sim. "Nós pensamos" que existe, isso sim, uma sedimentação patológicA mais permanente e menos flexivel. Se lerem Malinowski em "A sexualidade e sua repressão nas sociedades primitivas", compreenderão pela análise que ele faz de uma ilha trobriandesa de linhagem patrilinear mais ao sul, a incrivel similitude da situação dos portugueses na Europa. A comparação que ele estabelece entre as populações com as quais residia (de linhagem matrilinear) e essas populações mais a sul é de uma impressionante clareza: desconfiados, fechados, neuróticos e com problemas de sustentação desconhecidos das populações liberais, do norte...
Não se trata portanto da inveja como categoria "per si". Trata-se de uma estrutura da qual a inveja é uma, só uma, das múltiplas manifestações que a "envelopam".
No espelho da inveja teriamos outra "categoria": o/a bajulador(a). Do estrangeiro que conhece o que ele(a) não conhece e que é "diferente", sempre para melhor (o olhar do português comum é sempre a partir do extremo de onde se encontra sendo esse extremo não só geográfico). A bajulação do estrangeiro pelo português chega a ser servil ao mesmo tempo que revela uma velhacaria inusitada face ao seu concidadão.
É o extremo do filho esquecido, abandonado à sua condição de ser periférico que identificando-se com o "outro" encarnado pelo estrangeiro e rejeitando o irmão virtualiza participar da completude que ele atribui ao outro, afastando-se da seu reflexo de ser castrado.
Paralelamente existe a bajulação do poderoso que possui poder e supostamente saber de como poder ter poder que corresponde à figura lacaniana do capitalista mas que é projectada a partir de imagens esfarrapadas do grande pai. Bajulação esta que é transversal e não está consignada à perifericidade portuguesa. E que pode uma produtividade promíscua fundada numa regimentação de perversões múltiplas ainda que fundadas numa mesma estrutura (a do preverso que pode ser lida como a inversão da estrutura da histérica). AST
Um famoso filósofo português contemporâneo fala no "mal de portugal" (o termo é meu) colocando a inveja como uma aspecto central para o diagnóstico desse mal.
O que é a inveja?
Uma categoria? Um estado de alma? Uma patologia?
O "grande filósofo" ao que dizem não explícita. Nem me espanta pois em filosofia criam-se universais com a mesma facilidade com que se muda de peúgas e por isso a projecção como universal do significante inveja não seria nada de novo do reino das filosofias.
O que é a inveja para "nós"?
Um sintoma.
Um sintoma de que?
Da nossa incompletude olhada a partir de um suposto outro (figura central da psicanálise post-lacaniana) ao qual atribuímos um suposto saber e uma suposta completude.
Invejá-mo-lo ao ponto de lhe desejarmos a morte. Não o invejamos por o invejar. Invejamo-lo porque olhamo-lo olhando-nos e gozando com a nossa incompletude. Ele que para nós é o outro que sabe e sabendo sabe e sabe de nós. Uma ficção que pode ter alguma projecção da ordem do universalizante no que toca a uma suposta "condição humana".
Em Portugal há mais inveja que nos outros lugares?
Não sei. O grande filósofo crê que sim. "Nós pensamos" que existe, isso sim, uma sedimentação patológicA mais permanente e menos flexivel. Se lerem Malinowski em "A sexualidade e sua repressão nas sociedades primitivas", compreenderão pela análise que ele faz de uma ilha trobriandesa de linhagem patrilinear mais ao sul, a incrivel similitude da situação dos portugueses na Europa. A comparação que ele estabelece entre as populações com as quais residia (de linhagem matrilinear) e essas populações mais a sul é de uma impressionante clareza: desconfiados, fechados, neuróticos e com problemas de sustentação desconhecidos das populações liberais, do norte...
Não se trata portanto da inveja como categoria "per si". Trata-se de uma estrutura da qual a inveja é uma, só uma, das múltiplas manifestações que a "envelopam".
No espelho da inveja teriamos outra "categoria": o/a bajulador(a). Do estrangeiro que conhece o que ele(a) não conhece e que é "diferente", sempre para melhor (o olhar do português comum é sempre a partir do extremo de onde se encontra sendo esse extremo não só geográfico). A bajulação do estrangeiro pelo português chega a ser servil ao mesmo tempo que revela uma velhacaria inusitada face ao seu concidadão.
É o extremo do filho esquecido, abandonado à sua condição de ser periférico que identificando-se com o "outro" encarnado pelo estrangeiro e rejeitando o irmão virtualiza participar da completude que ele atribui ao outro, afastando-se da seu reflexo de ser castrado.
Paralelamente existe a bajulação do poderoso que possui poder e supostamente saber de como poder ter poder que corresponde à figura lacaniana do capitalista mas que é projectada a partir de imagens esfarrapadas do grande pai. Bajulação esta que é transversal e não está consignada à perifericidade portuguesa. E que pode uma produtividade promíscua fundada numa regimentação de perversões múltiplas ainda que fundadas numa mesma estrutura (a do preverso que pode ser lida como a inversão da estrutura da histérica). AST