Nuit de Chien
Ridiculamente traduzido para português como "Esta Noite" (tradução talvez deliberadamente aproximada do título do livro de Juan Carlos Onetti), o filme Nuit de Chien, filmado na noite portuense (pode-se vislumbrar alguma conexão com as "máfias da noite" - as guerras e alianças entre a bandidagem da noite - que na altura da rodagem do filme estavam especialmente activas no Porto), foi projectado na Cinemateca Portuguesa.
Foi o último trabalho de Werner Schroeter: um último trabalho violento e "curioso", numa adaptação de um romance do escritor Juan Carlos Onetti. Já em 1986 Schroeter realizara o documentário De l' Argentine, sobre a ditadura que destroçou aquele país (Argentina). Em Nuit de Chien (Noite de Cão), estamos no domínio de uma ficção, mas uma ficção que foi realidade nas ditaduras violentas que dominaram a "América Latina" e o Sul da Europa.
Muito lucidamente, um dos torcionários explica que quando se inicia um interrogatório (utilizando a tortura) não se sabe exactamente o que se pretende saber: é ao longo do mesmo que se vai compreendendo o que se quer saber... Por sinal o mesmo torcionário que no final mata o "herói" - a quem tinha prestado homenagem momentos antes - herói que tomba sem que ninguém sequer se debruce sobre ele e a criança que com ele morre. Aqui, nesta "ficção-realidade" de cariz surreal, se percebe como o horror faz parte da natureza do torcionário (*), que tortura mais por prazer que por necessidade (desculpa lá, são enganos que acontecem: dizem a uma destruída Irene - feita um farrapo depois de torturada - que desde o início não sabia do paradeiro de quem procuravam).
Estamos no domínio da estetização do horror. Mas que mais nos resta senão a (tentativa) de esteticizar quando nos deparamos com o "horror em si", que é indizível e impensável?
(*) veja-se esta "curiosidade":
"O homicida acrescentou ainda que tinha curiosidade em “conhecer o sabor” do companheiro de cela. Apurou-se, entretanto, que este chegou mesmo a cozinhar os pulmões de Baudry com cebola, azeite, sal e pimenta, num pequeno fogão de campismo que os presos estavam autorizados a usar nas celas." jn.pt
Ridiculamente traduzido para português como "Esta Noite" (tradução talvez deliberadamente aproximada do título do livro de Juan Carlos Onetti), o filme Nuit de Chien, filmado na noite portuense (pode-se vislumbrar alguma conexão com as "máfias da noite" - as guerras e alianças entre a bandidagem da noite - que na altura da rodagem do filme estavam especialmente activas no Porto), foi projectado na Cinemateca Portuguesa.
Foi o último trabalho de Werner Schroeter: um último trabalho violento e "curioso", numa adaptação de um romance do escritor Juan Carlos Onetti. Já em 1986 Schroeter realizara o documentário De l' Argentine, sobre a ditadura que destroçou aquele país (Argentina). Em Nuit de Chien (Noite de Cão), estamos no domínio de uma ficção, mas uma ficção que foi realidade nas ditaduras violentas que dominaram a "América Latina" e o Sul da Europa.
Muito lucidamente, um dos torcionários explica que quando se inicia um interrogatório (utilizando a tortura) não se sabe exactamente o que se pretende saber: é ao longo do mesmo que se vai compreendendo o que se quer saber... Por sinal o mesmo torcionário que no final mata o "herói" - a quem tinha prestado homenagem momentos antes - herói que tomba sem que ninguém sequer se debruce sobre ele e a criança que com ele morre. Aqui, nesta "ficção-realidade" de cariz surreal, se percebe como o horror faz parte da natureza do torcionário (*), que tortura mais por prazer que por necessidade (desculpa lá, são enganos que acontecem: dizem a uma destruída Irene - feita um farrapo depois de torturada - que desde o início não sabia do paradeiro de quem procuravam).
Estamos no domínio da estetização do horror. Mas que mais nos resta senão a (tentativa) de esteticizar quando nos deparamos com o "horror em si", que é indizível e impensável?
(*) veja-se esta "curiosidade":
"O homicida acrescentou ainda que tinha curiosidade em “conhecer o sabor” do companheiro de cela. Apurou-se, entretanto, que este chegou mesmo a cozinhar os pulmões de Baudry com cebola, azeite, sal e pimenta, num pequeno fogão de campismo que os presos estavam autorizados a usar nas celas." jn.pt