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Da Repeticäo

Freud falou no automatismo da repeticäo. Michel Serres disse que a repeticäo gera a diferenca por um processo que näo explicou.
A repeticäo patológica aparece - impöe-se - como uma trágica e inexplicavel necessidade que raramente produz significantes. Há uma intensiva e exaustiva repeticäo de um só significante ao qual o sujeito ficou ancorado, verificando-se uma trágica sucessäo do mesmo que poderá ser definida por: S1,S1,S1...Sn.

A partir do memento que o sujeito faz uma demanda de análise pode comecar, dependendo do sujeito e do analista, a produzir-se uma repeticäo que já näo é escrava da repeticäo do mesmo que seguindo uma via paralela e que sendo ainda determinante tanto para a realidade que o sujeito constroi como para a construcáo do seu insconsciente no processo de análise, está já sujeita a uma "des-realizacäo", uma perca sucessiva de "realidade", dada a repeticäo produtiva que corre paralelamente na análise.
Há que explicitar que a clínica lacaniana näo é escrava de rememoracöes que podem nem sequer existir e a existirem poderäo näo escapar ao mecanismo de repressäo primário definido por Freud. O inconsciente näo emerge nem na remomeracäo, nem nos sonhos. O inconsciente simplesmente näo emerge por que näo existe como "ser" plasmado á espera que o "espremam" cá para fora.
Lacan introduz-nos num inconsciente dinämico. Introduz-nos numa dinämica que se establece na suposta relacäo que o sujeito supöe manter com o Outro; numa dinämica que configura a construcäo do inconsciente na direccionalizacäo de um discurso que transborda aquilo que o sujeito quer dizer. Esse discurso vai-se "pivotear" em significantes que potenciam e possibilitam uma construcäo metonímica que produz sentido: o sentido do inconsciente.
Teremos entäo, paralelamente a uma "trágica e monótona" repeticäo do mesmo, uma repeticäo metonimica que metamorfoseia o mesmo que passa a ser um "mesmo diferente", produzindo nesta metamorfose um sentido que "näo se revelando se desvela".

Temos entäo näo uma mas duas repeticöes: a repeticäo psicótica que näo variando näo produz qualquer sentido pois só significa uma coisa (perseguicäo, por exemplo).
A repeticäo que se produz no processo de análise que permitirá a construcäo do inconsciente sustentado em significantes que produzem outros significantes do quais se organiza um discurso com um sentido determinado e que é o discurso do inconsciente (A "Bela Carniceira" pediu caviar mas näo aceitou o caviar que o marido lhe trouxe. Sonhou com pedacos de salmäo. O marido tinha dito a um pintor que mais valia pintar um pedaco de um qualquer traseiro feminino que a sua cara. Será que temia que o marido a traísse com um qualquer bocado de traseiro feminino? A interpretacäo de Freud foi outra. A análise falhou. Como aliás todas as análises que o criador da psicanálise encetou...).

Que pode acontecer na psicanálise post-freudiana "tradicional"? Uma desmultiplicacäo de um delírio que sem freio, "sem rei nem roque" vai conduzir da neurose á psicose ou vai "psicotizar" a pré-psicose.

Na psicanálise post-freudiana (näo lacaniana) parece estar patente a ideia de Michel Serres de que da repeticäo exaustiva alguma coisa de novo há-de surgir.
Seja lá o que för.... AST

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