Psiquiatra em contradição
É com este título que o Correio da Manhã de 30/05/2008, na página 19, apresenta uma fotografia do psiquiatra Carlos Amaral Dias, rodeado pelos advogados dos supostos pedófilos que estão a ser julgados no "caso Casa Pia", todos sorridentes e felizes.
O psiquiatra Amaral Dias garante que o acusado Carlos Cruz não tem "personalidade pedófila".
Mais interessante é o texto que se segue:
... a juíza confrontou-o com o parecer onde escreveu que a credibilidade... "dificilmente é verificada". O psiquiatra insistiu que apenas fez uma "crítica científica" e classificou as primeiras perícias feitas aos jovens como "inválidas", o que levou o procurador a perguntar: "Se o relatório é inválido como pode concluir que a credibilidade dos jovens não pode ser sustentada?"
Ora bem: tudo isto ficaria como mais uma curiosidade sobre as facetas da psiquiatria e de alguns psiquiatras se o psiquiatra em questão não fosse o mais conhecido psicanalista português das escolas "convencionais" (não lacanianas). Ora, escutar um psicanalista a falar em "crítica científica" e a garantir isto e aquilo é no mínimo estranho, para não dizer arrepiante. O mais "bizarro" é que CAD esteve (e está) no julgamento como psiquiatra, o que é no mínimo muito estranho porque os psiquiatras que escolhem a via da psicanálise abandonam (dadas as contradições fundamentais que existem entre uma e outra práticas e respectivas prespectivações da condição e das problemáticas humanas) a actividade como psiquiatras. Portanto as afirmações de CAD "traem" duplamente a sua condição de psicanalista: 1) como psicanalista nunca as poderia ter proferido porque aos olhos da psicanálise são falsas e estaria a produzir e a propagar pseudo-ciência 2) ao abandonar a sua condição de psicanalista para as poder proferir, re-assume a sua condição de psiquiatra e, colocando temporariamente (porque é com o exercício da sua actividade como suposto psicanalista que ganha os seus grandes honorários) a psicanálise na prateleira, faz passar que há uma ciência objectiva para o estudo e análise do comportamento humano e que essa ciência é a psiquiatria. CAD volta à idade da pedra...
Eu diria que há aqui outros imponderáveis para além da psicanálise e da psiquiatria, ainda que não estejam nem além nem aquém da Ética da Psicanálise, que se materializa na Ética do Psicanalista (ou na sua ausência, que condiciona que se esteja a praticar uma coisa qualquer distinta da psicanálise usurpando o nome...). Imponderáveis esses que, felizmente, que não escaparam ao procurador.
Nota: o último número da Afreudite trata exactamente sobre a psicanálise e o direito.
É com este título que o Correio da Manhã de 30/05/2008, na página 19, apresenta uma fotografia do psiquiatra Carlos Amaral Dias, rodeado pelos advogados dos supostos pedófilos que estão a ser julgados no "caso Casa Pia", todos sorridentes e felizes.
O psiquiatra Amaral Dias garante que o acusado Carlos Cruz não tem "personalidade pedófila".
Mais interessante é o texto que se segue:
... a juíza confrontou-o com o parecer onde escreveu que a credibilidade... "dificilmente é verificada". O psiquiatra insistiu que apenas fez uma "crítica científica" e classificou as primeiras perícias feitas aos jovens como "inválidas", o que levou o procurador a perguntar: "Se o relatório é inválido como pode concluir que a credibilidade dos jovens não pode ser sustentada?"
Ora bem: tudo isto ficaria como mais uma curiosidade sobre as facetas da psiquiatria e de alguns psiquiatras se o psiquiatra em questão não fosse o mais conhecido psicanalista português das escolas "convencionais" (não lacanianas). Ora, escutar um psicanalista a falar em "crítica científica" e a garantir isto e aquilo é no mínimo estranho, para não dizer arrepiante. O mais "bizarro" é que CAD esteve (e está) no julgamento como psiquiatra, o que é no mínimo muito estranho porque os psiquiatras que escolhem a via da psicanálise abandonam (dadas as contradições fundamentais que existem entre uma e outra práticas e respectivas prespectivações da condição e das problemáticas humanas) a actividade como psiquiatras. Portanto as afirmações de CAD "traem" duplamente a sua condição de psicanalista: 1) como psicanalista nunca as poderia ter proferido porque aos olhos da psicanálise são falsas e estaria a produzir e a propagar pseudo-ciência 2) ao abandonar a sua condição de psicanalista para as poder proferir, re-assume a sua condição de psiquiatra e, colocando temporariamente (porque é com o exercício da sua actividade como suposto psicanalista que ganha os seus grandes honorários) a psicanálise na prateleira, faz passar que há uma ciência objectiva para o estudo e análise do comportamento humano e que essa ciência é a psiquiatria. CAD volta à idade da pedra...
Eu diria que há aqui outros imponderáveis para além da psicanálise e da psiquiatria, ainda que não estejam nem além nem aquém da Ética da Psicanálise, que se materializa na Ética do Psicanalista (ou na sua ausência, que condiciona que se esteja a praticar uma coisa qualquer distinta da psicanálise usurpando o nome...). Imponderáveis esses que, felizmente, que não escaparam ao procurador.
Nota: o último número da Afreudite trata exactamente sobre a psicanálise e o direito.