Evidentemente que as notícias vindas do Egipto só podem criar preocupação. Os salafistas querem impôr uma teocracia (a sharia) e parecem contar com um apoio substancial. Isto é: aparentemente a democracia só serviu para os egipcios, ou parte substancial deles, chegarem a outra ditadura, talvez pior. Pessoalmente nunca alimentei grandes esperanças em relação ao Egipto.
No entanto isto não pode deixar-nos indiferentes ao genocídio que corre na Síria, onde se trata basicamente da luta pela manutenção do domínio absoluto por parte da seita dos alouitas, que constitui unicamente 10% da população. E sobretudo não podemos cair no logro de supormos que todos os países islâmicos são iguais. Na Tunísia, por exemplo, duvido que alguma vez os radicais islâmicos tenham sucesso e no Irão estou convencido que se alguma vez existir democracia e eleições que não sejam manipuladas ganharão os "moderados". Em Marrocos, onde parte da população prefere falar francês, os radicais não terão nenhum sucesso, o que não significa que não haja terroristas islâmicos marroquinos. Até ingleses brancos (muito especificamente britânicas brancas que se casaram com islâmicos e se converteram ao islão) há entre os praticantes da bomba.
Ou seja: os radicais islâmicos parecem ter sucesso nas ex-colónias inglesas. Algo que não me espanta pois o radicalismo islâmico na Europa nasceu e está enraizado no Reino Unido, onde tem seguramente amplos seguidores, ao passo que na França pode ser visto como marginal. Ou seja, aparentemente quanto mais "politicamente correcto" mais o Estado arrisca em ser liquidado por aqueles a quem muito graciosamente devota o seu "correcto".
Mas seguramente que a diferença entre o Egipto e Marrocos tem que ver não com o contexto inglês ou francês mas com o contexto da própria colonização. Em Marrocos o nome de um administrador colonial francês continua a dar nome a uma escola e uma rua, coisa improvável no Egipto. No entanto é um facto que o partido islamista venceu as eleições. Mas também é um facto que, agora no poder, se converteu em "moderado". Diria que o partido islamista no poder me Marrocos corresponde grosso modo à oposição que no Irão foi simplesmente trucidada e silenciada.
É verdade que nos países islâmicos há um fosso impressionante entre os habitantes urbanos e os do interior, onde os islamitas exercem grande influência. No entanto, parece-me que em Marrocos foi o grande compadrio e a corrupção do regime que levou à vitória do partido islamista, que venceu claramente em centros urbanos como Rabat e Casablanca.
E se foi algo que aconteceu em Marrocos, e sem mantém dentro dos limites do que poderiamos chamar "moderação" (uma "moderação" imposta por uma monarquia de carácter ditatorial onde quem a critica vai apodrecer nas previsivelmente inenarráveis prisões marroquinas, que olha talvez com alguma admiração para a ex-colónia e para a democracia mas que não pensa largar o poder, seja agora seja em cem anos - não sendo na essência diferente da monarquia britânica, que no entanto permite, porque tem de permitir, que a critiquem *) pode, com a respectiva nuance cultural/religiosa, acontecer em qualquer outro lugar de forma muito mais radical, na ausência de instituições teoricamente acima da política, que forneçam ao "sistema" uma consistência que é aparente mas suficiente.
Um regime que não é transparente não pode reivindicar a legitimidade plena, ainda que eleições regulares lhe ofereçam uma legitimidade legal, que não passa de uma legitimidade que é legal num contexto determinado.
* claro que há uma diferença grande na medida em que o rei marroquino mantém funções executivas e preside ao conselho de ministros, havendo mesmo áreas exclusivas do rei: os negócios estrangeiros e a segurança (claro!).
No entanto isto não pode deixar-nos indiferentes ao genocídio que corre na Síria, onde se trata basicamente da luta pela manutenção do domínio absoluto por parte da seita dos alouitas, que constitui unicamente 10% da população. E sobretudo não podemos cair no logro de supormos que todos os países islâmicos são iguais. Na Tunísia, por exemplo, duvido que alguma vez os radicais islâmicos tenham sucesso e no Irão estou convencido que se alguma vez existir democracia e eleições que não sejam manipuladas ganharão os "moderados". Em Marrocos, onde parte da população prefere falar francês, os radicais não terão nenhum sucesso, o que não significa que não haja terroristas islâmicos marroquinos. Até ingleses brancos (muito especificamente britânicas brancas que se casaram com islâmicos e se converteram ao islão) há entre os praticantes da bomba.
Ou seja: os radicais islâmicos parecem ter sucesso nas ex-colónias inglesas. Algo que não me espanta pois o radicalismo islâmico na Europa nasceu e está enraizado no Reino Unido, onde tem seguramente amplos seguidores, ao passo que na França pode ser visto como marginal. Ou seja, aparentemente quanto mais "politicamente correcto" mais o Estado arrisca em ser liquidado por aqueles a quem muito graciosamente devota o seu "correcto".
Mas seguramente que a diferença entre o Egipto e Marrocos tem que ver não com o contexto inglês ou francês mas com o contexto da própria colonização. Em Marrocos o nome de um administrador colonial francês continua a dar nome a uma escola e uma rua, coisa improvável no Egipto. No entanto é um facto que o partido islamista venceu as eleições. Mas também é um facto que, agora no poder, se converteu em "moderado". Diria que o partido islamista no poder me Marrocos corresponde grosso modo à oposição que no Irão foi simplesmente trucidada e silenciada.
É verdade que nos países islâmicos há um fosso impressionante entre os habitantes urbanos e os do interior, onde os islamitas exercem grande influência. No entanto, parece-me que em Marrocos foi o grande compadrio e a corrupção do regime que levou à vitória do partido islamista, que venceu claramente em centros urbanos como Rabat e Casablanca.
E se foi algo que aconteceu em Marrocos, e sem mantém dentro dos limites do que poderiamos chamar "moderação" (uma "moderação" imposta por uma monarquia de carácter ditatorial onde quem a critica vai apodrecer nas previsivelmente inenarráveis prisões marroquinas, que olha talvez com alguma admiração para a ex-colónia e para a democracia mas que não pensa largar o poder, seja agora seja em cem anos - não sendo na essência diferente da monarquia britânica, que no entanto permite, porque tem de permitir, que a critiquem *) pode, com a respectiva nuance cultural/religiosa, acontecer em qualquer outro lugar de forma muito mais radical, na ausência de instituições teoricamente acima da política, que forneçam ao "sistema" uma consistência que é aparente mas suficiente.
Um regime que não é transparente não pode reivindicar a legitimidade plena, ainda que eleições regulares lhe ofereçam uma legitimidade legal, que não passa de uma legitimidade que é legal num contexto determinado.
* claro que há uma diferença grande na medida em que o rei marroquino mantém funções executivas e preside ao conselho de ministros, havendo mesmo áreas exclusivas do rei: os negócios estrangeiros e a segurança (claro!).