Dois ensaios sobre a Fé
A Aparição, de Xavier Giannoli, é um curioso filme que nos confronta com a funcionalidade da Fé, quer no aspeto de necessidade d@ crente (as pessoas que a procuram), quer da instituição (a comissão do Vaticano), na relação de tensão com a santidade genuína (Anna), que transcende tanto a necessidade dos crentes como a necessidade (de credibilidade) da instituição Vaticano, que assume consistentemente um papel de ironia depreciativa face a Anna ("entre a santidade ou a formação para cabeleireira...", lança um dos enviados do Vaticano). O outro lado da santidade é a mentira autruísta, já que Anna é a substituta da verdadeira vidente. Também não falta o padre charlatão que quer transformar aquilo num negócio de dimensão internacional e que terá produzido a "relíquia", que é mais um elemento gerador de entropia, desnecessário, ou só necessário para o argumento, pois é este elemento estranho que vai desencadear o colapso de Anna. Interessante é a angústia que a santidade genuína de Anna provoca no racional/cético (o jornalista), pois todos nós, de alguma forma, nos identificamos com ele, que, como num apêndice (o filme termina efetivamente com a morte de Anna), vai procurar a amiga (pelas cartas que Anna pediu que lhe fossem entregues, já sabia ser a verdadeira vidente, que se escapou ao peso da responsabilidade da santidade, deixando-a nos ombros de Anna), e, num apêndice ao apêndice, numa atitude de aparente religiosidade radical, vai colocar (ou tentar) um ícone no seu suposto lugar de origem, assumindo o risco de atravessar uma zona quase em estado de guerra (ato semi-falhado porque nem sequer pôde deixá-lo dentro do mosteiro que se encontrava trancado). O ícone, oferecido pelo companheiro da verdadeira vidente aos pais desta, aparece em uma fotografia onde está o colega do jornalista morto em trabalho de foto-reportagem de guerra, situação recente que o atormenta. Portanto, a deposição do ícone no suposto local do seu achamento é não um ato de religiosidade mas sim um ato de homenagem ao colega morto e, simultaneamente, uma sublimação desse trauma. Talvez mais isto que aquilo. Daí o atravessamento de uma área de grande risco para deposição do ícone, que remete para o risco onde o colega pereceu. Parece-me um esticar de corda que leva a uma proliferação quase incontrolável de interpretações, que o filme não aguenta. Na música seria uma sinfonia em que aparecem vários temas aos quais não é dado desenvolvimento consistente porque não são compatíveis entre si, ficando uma sensação de colagem. Faz-me lembrar a obra de Jan Potocki "O Manuscrito encontrado em Saragossa". Só que uma coisa é uma obra literária, outra um filme *. É certo que há o filme de Wojciech Has. Uma obra fabulosa, que faz justiça à criação de Potocki, filme esse que dura três horas e que é "fantástico", no sentido do realismo fantástico sul americano, porque a obra de Potocki também o é (com a diferença que Potocki a escreveu em 1815, muito antes daquilo que se designa como "realismo fantástico"...). A diferença é que aqui existe uma elevada consistência ttemática. Em"A Aparição", estamos em outra estética e em outra linguagem, que não aguenta o intrincado do argumento, porque ele próprio não se aguenta a si próprio. Mesmo que a estética fosse outra a falta de consistência estaria lá. Talvez num estilo "a la Godard" funcionasse... No entanto não deixa de ser um filme interessante. Talvez mais curioso que interessante. E sobretudo vê-se o que é um verdadeiro trabalho de investigação jornalística.
Já "Não Deixeis Cair em Tentação", de Cedric Kahn, é uma história "plana", no sentido de compreensível e, de certa maneira, "racional". Se não sabemos (pelo menos eu não sei) o que é o "desmame" de um ou uma "agarrada" (temos a ideia que deverá ser terrível mas nunca o experimentamos, pelo menos eu: um desmame de um antidepressivo ou de um ansiolítico não será concerteza o mesmo que um desmame de drogas "duras"), conseguiremos entender bem a reação de alguém que decide, com uma convicção "inabalável", ser padre mas, inexpectavelmente, "salta fora" no "último minuto" e vai ter com a mulher que ama. Um filme no mínimo interessante.
* na realidade o livro é de muito mais difícil leitura que a visualização do filme, pois a narrativa colapsa - ou a nossa paciência colapsa - com as várias histórias que se abrem sucessivamente dentro da história principal, num estilo "a la Italo Calvino" mais de cem anos antes deste ter nascido.
Já "Não Deixeis Cair em Tentação", de Cedric Kahn, é uma história "plana", no sentido de compreensível e, de certa maneira, "racional". Se não sabemos (pelo menos eu não sei) o que é o "desmame" de um ou uma "agarrada" (temos a ideia que deverá ser terrível mas nunca o experimentamos, pelo menos eu: um desmame de um antidepressivo ou de um ansiolítico não será concerteza o mesmo que um desmame de drogas "duras"), conseguiremos entender bem a reação de alguém que decide, com uma convicção "inabalável", ser padre mas, inexpectavelmente, "salta fora" no "último minuto" e vai ter com a mulher que ama. Um filme no mínimo interessante.
* na realidade o livro é de muito mais difícil leitura que a visualização do filme, pois a narrativa colapsa - ou a nossa paciência colapsa - com as várias histórias que se abrem sucessivamente dentro da história principal, num estilo "a la Italo Calvino" mais de cem anos antes deste ter nascido.

