Os arquivos do inquérito oficial da revolta em que o meu tio participou *



* estou convencido (não se trata de uma mera convicção na base de uma pressuposição meramente subjetiva ou deducional) que se ele conhecesse o Portugal atual e os portugueses do Portugal atual, não teria "mexido uma palha". Mais concretamente: da mesma forma que o escritor Nuno Bragança recusou ser ministro após o 25 de Abril e acabou por se suicidar, o meu tio recusou liminarmente envolver-se na política, apesar dos muitos e insistentes convites. Provavelmente conhecia os portugueses e tinha consciência que a sua luta, e sacrifício da sua juventude (e só não foi da própria vida porque o meu avô não deixou, conseguindo "arrancá-lo" do Tarrafal, para onde ele foi mandado), tinha sido, de alguma forma, inútil, ou, pelo menos, a brutal penalização que pagou, na situação criada por ele próprio, em julgamento, não é consequente com a opinião que ele formou do povo pelo qual assumiu uma atitude de heroísmo radical (em tribunal, com 17 anos, declarou nem estar arrependido e, pelo contrário, estar pronto a participar na próxima revolta em que tivesse oportunidade de participar). O aproveitamento partidário que aconteceu, da imagem do meu tio, no final da sua vida, quando ele já só se deslocava em cadeira de rodas, foi oportunista e ilegítimo, pois o meu tio rechaçou liminarmente os insistentes convites para se inscrever neste ou naquele partido. Não porque desconfiasse da política "em si", mas porque provavelmente não confiava nos portugueses. A realidade mostra que ele esteve certo duplamente: 1) ao lutar pela liberdade, como afirmação da sua integridade pessoal enquanto ser humano que não prescinde do seu livre arbítrio, ainda que com risco da própria vida (tendo sido agraciado com a Ordem da Liberdade, pelo ex-presidente Jorge Sampaio); 2) ao não aceitar desempenhar qualquer papel de relevo num país de gente da qual ele desconfiava. E isso não teve a ver especificamente com a classe política, mas com o "povo", "povo" do qual a classe política emerge. Os políticos não são marcianos: condizem, plenamente, com o povo que representam.

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