O capitão

Se se falar da estetização da atrocidade, Robert Schwentke, será um nome incontornável, daqui para diante. Não é de todo por acaso que o filme recebeu um prémio para a melhor fotografia. Também há que destacar a sonoplastia. Impressionante. "O capitão", que é baseado num caso verídico, remete-nos para a "velha" questão da "natureza humana". Não vou repisar a "Carta sobre o Humanismo", de Heidegger, porque se a pensarmos depois de vermos este filme vamos considerar que Heidegger mais não escreveu que um branqueamento da atrocidade, porque é demasiado simples dizer-se que a atrocidade faz parte da "humanidade do homem". Aliás, no julgamento do (falso) capitão, um dos "arguentes" refere que eles próprios (oficiais nazis) tinham tido o "dêdo leve" e que os "excessos" do falso capitão até não foram por aí além... (para se perceber a dimensão dos "excessos" do "capitão" e seus seguidores tem de se ver o filme). Obrigatoriamente ver o filme, não só nem principalmente por, mas também por isso. O que aporta substancialmente à "nossa" reflexão é sermos informados, no final, que o falso capitão foi posteriormente condenado por roubar um pão, ele que ,enquanto "capitão",  extraía confissões de pequenos roubos, ou deserções, para justificar a chacina que ia promovendo. Mas estamos a esquecer-nos do início, em que o falso capitão escapou, "por um triz", dos seus colegas, soldados alemães, que queriam matar o "porquito", porque o "porquito" seria, deduz-se (nomeadamente quando o vêmos a desertar, no final, para evitar ir para a frente, depois de ter solenemente declarado, no seu julgamento, que seria uma honra ir servir "a causa"), um desertor e um ladrão que roubava para comer, como aqueles que mais à frente ele manda chacinar com argumentos idênticos aos usados pelos verdadeiros oficiais que cometeram outras chacinas, mas, este,  numa postura de quem "goza" a situação (após envergar a farda de capitão, já o tinhamos visto a cantar que se sentia no paraíso...), pois afinal transmutou-se num capitão, com poder de vida e de morte sobre os outros. A questão é mesmo o "grau": o grau da atrocidade, o chacinar pelo chacinar, sem regras, sem entraves, sem registos (afinal trata-se de alguém que engole a caderneta, o registo atestador de não passar de um soldado raso), que, aquele que escapou "por um triz" a ser caçado, incrementou sob o pretexto da "necessidade" de não deixar os prisioneiros (ele, se não se tivesse escapado e encontrado uma farda de capitão, seria um deles) cairem nas mãos do inimigo. Na vila onde chegaram introduziu o "imposto de passagem", que era o roubo das pessoas que circulavam nas ruas, vila onde prontamente à chegada tinham liquidado o presidente da câmara. O "capitão" não era um "campónio". Podia ser um campónio, ou o que quer que fosse, entre os escalões sociais mais baixos, mas não era um ingénuo: era "tipo esperto", um "tipo prático", como dizem no julgamento (sendo que um dos "arguentes" é exatamente o oficial que no início do filme andava à caça do "porquito", que posteriormente reconheceu, na figura do "capitão", mas, face à "eficácia" do "porquito" transmutado, que assumiu a missão da liquidação dos prisioneiros, dos quais se queriam ver livres, decidiu "esquecer-se" de onde o conhecia), um sujeito que intui rapida e eficazmente tudo o que necessita intuir e opta sistematicamente pelo lado mais brutal, onde se nota que disfruta um "gozo" perverso (ao longo do filme vêmos outros fazerem opções diferentes, alguns em atos de quase heroísmo). É também, sem surpresa, um sujeito brutal, desprovido de princípios e de ideologia (o que ele proclama de "ideologia" não passa do o "show-off" de alguém que foi carne para canhão dos verdadeiros capitães dos quais escapou por "um triz", que agora justifica com a idelogia as atrocidades que promove, simplesmente porque é um ser monstruoso e mandar matar fazem-o sentir com verdadeiro poder, já que, mesmo a tentar sobreviver, teria, enquanto "capitão", outras opções, a começar pelo argumento que os presos  teriam de ser julgados por um tribunal marcial e não por ele - a "corrida" dos prisioneiros atados, saída genuinamente da mente dele, é suficientemente esclarecedora), que castiga o fiel motorista e servente, mandando-o entrar na fossa, onde corpos gemiam, para o obrigar (a alguém que até ao momento se limitava a servir o capitão e ficava de longe, inconformado e de lágrimas nos olhos, a assistir ás chacinas dos seus iguais, tendo o "capitão", manhoso percebido bem  isso, assim como o sentimento de revolta do motorista/servente) a matar soldados como ele [tratar-se-iam todos os prisioneiros, assim como os que seguiam o "capitão", incluindo o próprio, de desertores e ladrões de comida, e, mais raramente - como aquele que o "capitão" manda tirar da cama para "julgar" e condenar à morte - psicopatas que têm gozo em espancar até à morte as suas vítimas, e faziam-no á vista de todos, sendo que este facto não era considerado crime (quando muito um "excesso"), tendo o referido psicopata sido "condenado" à morte para o "capitão" se apoderar da mulher que o referido psicopata tinha ostentatoriamente "sacado" para si (mulher aquela, que, com "sentido prático", se entregou "instantaneamente" ao "capitão", e, pouco depois, vêmo-la a aplaudir, com entusiasmo, o fuzilamento, de costas, do ex-amante) e vingar o facto do psicopata ter percebido tudo desde o início, e desde o início ter ironizado com o facto de o "capitão" ser, na realidade, um mero soldado raso que roubou as roupas de um verdadeiro capitão, coisa que, aparentemente, o fiel motorista e servente também tinha percebido, pois, tal como o anterior, também fez referência ás calças que ficavam demasiado grandes ao "capitão"...], revelando o seu "sentido prático", ao explicar-lhe que na realidade iria colocar um fim ao sofrimento daqueles que gemiam (posteriormente vê-se que alguns eram enterrados ainda vivos). Este filme não é para se refletir sobre a "natureza humana" "dos filósofos", nem sobre a "humanidade do homem" de Heidegger. Este filme é para se perceber que todos os porcos são iguais mas uns são mais iguais que outros.

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