Maria Madalena

Maria Madalena, cuja vida foi deliberadamente deturpada pelo Papa Gregório I, tem agora um filme, de Garth Davis, que vai mais além da simples reposição de uma suposta "justiça histórica" * pois transmite uma visão "ideológica": revolução versus compaixão. Pedro, no início e no final, afirma que ela iria dividir os apóstolos. Não dividiu. Prevaleceu a visão patriarcal, ao ponto de Gregório I a transformar de discípula eleita de Jesus, em prostituta. Era isso que ela seria no conceito patriarcal do qual se libertou, em que a mulher é oferecida a quem os homens da família decidem. Esta concepção reinou durante séculos e continua a ditar o comportamento de paises social e culturalmente atrasados, que serão os mais atrasados em termos absolutos, ao ponto de serem necessárias "cotas", para reduzirem anormalidades absolutamente gritantes, em pleno século XXI.

A mensagem da compaixão (oposta à ideia de um Cristo revolucionário) coloca a mensagem de Maria Madalena em linha com o budismo, que era praticado em boa parte do oriente e poderia ter influenciado o pensamento de Cristo.

Também a figura de Judas nos surge de forma menos simplista que o habitual. Judas seguia Jesus para reaver a sua família, morta pela fome. A sua traição foi para obrigar Jesus, que teria um poder infinito, a atuar (o que vai na linha de outras interpretações da figura de Judas). Enganou-se porque não era esse o caminho. Também aqui há algo vindo do oriente: o atuar não atuando, do taoísmo**. Afinal enganaram-se todos e a igreja católica, minada por homossexuais e pedófilos, é o resultado desse erro geminal, com consequências dramáticas em todo o sul da Europa católico (olhe-se para a violência contra as mulheres em Portugal - um país de homossexualidade generalizada, onde o próprio rei Sebastião foi vítima, em criança, do seu tutor, um "padre da igreja", jesuíta, gay e pedófilo, o que resultou na perca da independência &. O caso Casa Pia, as estatísticas atuais dos crimes de pefofilia conhecidos e os assassinatos de mulheres, a culminaram um calvário de maus tratos, perseguições e chantagens, demostram que nada mudou e que serão necessárias medidas de grande excecionalidade), por um lado; o sucesso do islão nos territórios que viram nascer o cristianismo, por outro. 

Jesus só anunciou a sua morte à mãe e através desta a Maria Madalena, a quem se revelou após ressuscitar e a única, entre todos os discípulos, com quem anteriormente o vimos manter conversas "substanciais". Pedro não esconde a irritação e Maria Madalena pergunta se ele vai carregar o seu ódio (Jesus já tinha colocado este dilema anteriormente a uma mulher, sendo este um aspecto central do pensamento budista) toda a existência. Isto pode ter leituras várias, já que Pedro é, no filme, um negro. Os apóstolos esperavam um reino terrestre, com Jesus como rei e eles como grandes dignatários. Enquanto os outros apóstolos esperavam uma compensação terrena, Judas só queria a sua família, o que era também uma compensação mas legítima do ponto de vista espiritual, já aconteceria no reino dos céus.  A atitude de Maria Madalena face a Judas foi a da compaixão (que fizeste tu, Judas?), da aceitação do equívoco de quem acreditava que os mortos iriam ressuscitar se Jesus fizesse aquilo que ele achava que iria ser feito. Ela sempre esteve muito mais além. 

* algo complexo pois da bíblia (que mais não é que uma edição dos "padres da igreja", que até suprimiram o evangelho segundo Pedro, que poderá reportar a fontes tão ou mais genuínas que os designados evangelhos canónicos, cuja autenticidade é mais do domínio da suposição que da factualidade ∆/∆∆) foram suprimidos os chamados envangelhos gnósticos. Da bíblia foi erradicada a figura de Asherah ∆3, que era adorada ao lado de Yahweh pelos antigos hebreus. No Evangelho da Verdade, gnóstico, a serpente é a reveladora da verdade [no budismo, temos a serpente (Naga) com várias cabeças (Mucilinda) que aparece a proteger Buda em atitude de meditação e Nagarjuna, que escreveu o Madhyamakakarika ∆4, aparece representado com uma coroa de serpentes, representação inspirada na lenda segundo a qual teria recebido das Naga (serpentes) o conhecimento dos textos do Prajnaparamita ∆5. Por outro lado, em alguma iconografia representando Avalokiteshvara ∆6 (que na China, Coreia e Japão, nomeadamente, assume aspecto feminino), as serpentes aparecem como um dos oito perigos e, no centro da Bhavachakra, representa o ódio, um dos três venenos. Em Yoginitantra, Parvati é a criadora do universo ∆7. Palden Lhamo, forma budista da deusa Kali, é a principal divindade protetora da ordem Gelugpa a que pertence o dalai-lama ∆8].

** Heidegger, se tivesse sido honesto e tivesse identificado as suas influências fundamentais, talvez não ficasse com o estigma histórico, pelo menos tão marcado, de ter compactuado com o nazismo. Não o fez por um motivo fútil: porque não quis indentificar influências cujos escritos originais lhe eram inacessíveis pois ele não dominava nem o pali nem os idiomas que criaram escolas relevantes do budismo, como o tibetano. Também não dominava o mandarim para poder ler o original do livro das mutações, obra fundamental do taoísmo, que tinha sido traduzido para o alemão com um prefácio de Jung. Era demasiado arrogante para assumir que só leu traduções, fazendo passar os gregos como sendo a fonte essencial do seu pensamento porque dominava o grego antigo e porque quis escamotear duas influências também essenciais, não por serem judeus mas por serem seus contemporâneos: Husserl e Freud. A boa influência é sempre a anónima ou a já desaparecida...



Anexos

& A Pedophile in the Palace: or The Sexual Abuse of King Sebastian of Portugal

∆ The gospels of MatthewMark, and Luke are referred to as the Synoptic Gospels because they include many of the same stories, often in a similar sequence and in similar or sometimes identical wording. They stand in contrast to John, whose content is comparatively distinct

∆∆ Theodoret states that the Nazarenes made use of the Gospel of Peter, for we know by the testimony of the Fathers generally that the Nazarene Gospel was that commonly called the Gospel according to the Hebrews. The same Gospel was in use among the Ebionites, and, in fact, as almost all critics are agreed, the Gospel according to the Hebrews, under various names, such as the Gospel according to Peter, according to the Apostles, the Nazarenes, Ebionites, Egyptians, etc., with modifications certainly, but substantially the same work, was circulated very widely throughout the early Church.

∆3 God had a wife, Asherah, whom the Book of Kings suggests was worshiped alongside Yahweh in his temple in Israel, according to a scholar.

∆4 Mūlamadhyamakakārikā


∆5 Prajñāpāramitā Sutras

∆6 Avalokiteshvara

∆7 He starts by eulogising the goddess as the cosmic mother (Vishvamata)

∆8 bodhisattvas who appear in terrifying form to protect Buddhists and Buddhism. 

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