Gurrelieder - Arnold Schoenberg


O Schoenberg deveria ter ficado na História não só nem principalmente como o criador do sistema dodecafónico, mas como o criador dos Gurre-lieder, uma das obras mais impressionantes de toda a História. Claro que isto é uma opinião... Na verdade historicamente a invenção do sistema dodecafónico teve consequências ao nível de paradigma, ou mudança de paradigma e, no limite, a "morte" da ideia de "paradigma" (enquanto meta-sistema acima das obras singulares). 

Os Gurre Lieder são, e foi esse o propósito do compositor, o "canto do cisne" do romantismo, por isso na terceira parte o côro proclama que "estamos todos mortos". Concerteza que não é por isso (que o texto o proclama), mas é sintomático. O bôbo ironiza com "este" (o rei) que anda por ali desesperado por causa de uma donzela que já morreu há anos. Também não será pela morte que está a ser anunciada, não só do romantismo mas do "meta-paradigma" (a chamada "harmonia clássica", que na verdade é do final do barroco, pois foi definitivamente estabilizada por Bach, ainda que em termos de forma tenha sido a seguir, com Haydn, que consolidou a "forma sonata" - e o aluno deste, Beethoven, na última sonata para piano e nos últimos quartetos, teria acabado definitivamente com ela se ela não tivesse servido a estética dos românticos), mas, sim, estamos todos mortos, porque o estamos em potência (sem extrapolações existenciais, porque aí poder-se-ia tomar a proclamação à letra). Mas o canto chega-nos literalmente do além, pois são os soldados ressucitados por Waldemar, do além onde a tal donzela já estaria, há anos, como nos explica o bôbo. Waldemar avisa Deus que se a mandou para o céu e a ele, quando morrer, o mandar para o inferno, separando-os definitivamente, que invadirá os céus. Não é uma ameaça fútil porque quem ressuscitou os combatentes mortos pode invadir os céus. A Cavalgada Selvagem, que o maestro não soube coorporizar, que aterrorizou os vivos, foi uma demonstração do que Waldemar fará no reino dos céus, se Deus ousar separá-lo da amada, quando ele morrer. A contemporaneidade mostra-nos que há sempre um inferno pior, que pode acontecer... Não sei se por culpa somente do maestro, se por culpa do maestro e da orquestra, e também pela massa coral muito reduzida em relação ao previsto pelo compositor (a obra apresentada neste concerto foi uma versão reduzida da obra original),  a "cavalgada selvagem" foi bastante inconseguida. A verdade é que (esta obra) não é para qualquer maestro (os prémios que o maestro em causa parece ter recebido, são como os os vinhos premiados: há-os para todos os gostos e de todas as qualidades, incluindo vinhos bastante mediocres). Conseguir uma interpretação que aterrorize os deuses, sejam eles quais forem, sendo certo que, Schoenberg, um judeu, não teria em mente os deuses do paganismo  (o texto sendo de Jens Peter Jacobsen, traduzido para o alemão por Robert Franz Arnold, foi expressamente escolhido pelo compositor), não é para um qualquer. Nem para interpretar Waldemar basta ser-se "honesto" e "correto".

O sprechgesang da parte final não nos anuncia, de todo, o Pierrot Lunaire: o sprechgesang corpus, simplesmente, ao que o côro já nos tinha dito: estamos todos mortos. O sprechgesang ultrapassa o ridículo de se falar a cantar de coisas infernais. Mas a verdade é que o final da obra irradia o mesmo romantismo luminoso que já estava morto e que era suposto a obra não fazer reviver. Não há qualquer inconsistência. De resto, naquela altura (1903), Mahler ainda só estava a iniciar a composição da sua sexta sinfonia...

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