“Neste momento sinto-me uma autêntica escrava" (em Portugal)

A Filipa é dentista e nem por isso fugiu ao flagelo da precariedade no mercado de trabalho. “Neste momento sinto-me uma autêntica escrava”, desabafa. “Neste momento, trabalho numa clínica que me paga 1% daquilo que faço, ou seja, se uma pessoa colocar um aparelho de 1700€, eu ganho 17€. Normalmente, o mínimo que um dentista ganha ronda os 30%. Os pacientes muitas vezes acham os dentistas uns careiros que só querem fazer dinheiro. Já não é assim há muito tempo”, refere. Filipa assegura que o panorama é cada vez mais frequente e que os “dentistas não têm ordenado base”, especialmente quem está a começar na profissão. “Infelizmente, tenho de me sujeitar pois ou é isto ou é nada”, diz.
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A Fernanda é licenciada em Biologia e, por falta de outras oportunidades, trabalha há mais de quatro anos num centro de estudos. Não tem contrato e passa recibos verdes. “Engravidei no ano passado e sempre que precisava ir ao médico tinha que arranjar quem me substituísse e pagar do meu bolso”, relata a jovem mãe. Desde que o filho nasceu, surgiu a pergunta diária: “Quando vens trabalhar?”. O bebé tinha 15 dias quando Fernanda regressou ao trabalho, até porque não ganhava salário nem licença enquanto estava em casa. “O bebé ia lá ao trabalho uma vez por dia para eu amamentar e durante essa hora de “pausa” eu própria pagava à colega que ficava com os alunos”, conta. Entretanto, por “não ter feito a recuperação pós-parto que deveria”, Fernanda está confinada a repouso absoluto e sem direito a Baixa.
Nota: os casos acima expostps são relativos ao "mercado de trabalho" (o próprio termo é atroz) e são diretamente derivados da mentalidade "liberal" que carateriza as gentes do PSD/CDS (pois os verdadeiros "sociais-democratas" do PSD já há muito que abandonaram o "barco"). O grave é que este governo não desejou verdadeiramente pôr um travão a isto. Já no que toca ao direito constitucional à habitação (pois sem habitação condigna não se pode sequer trabalhar), o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que anda deslumbrado com a "dinâmica" (leia-se turismo) de Lisboa, tem elevadas responsabilidades no estado absurdo "a que 'isto' chegou". Basta ir-se aos sites de aluguer de quartos em Lisboa [já nem falemos do aluguer de apartamentos: Lisboa pode ser "acessível" à "classe média" francesa ou alemã, e para os chineses e angolanos que aparecem por aí com largos milhões, imagina-se conseguidos como (sendo que estes já não são exatamente "classe média"...) , mas não é de todo para a "classe média" portuguesa], para se perceberem os preços "pornográficos" praticados, para além das condições ilegais impostas (mas estas não aparecem nos anúncios...).  350 ou 400 euros (por um quarto), com 2 ou 3 meses de avanço, sem recibos e frequentemente pago em "cash" (porque os proprietários não querem fornecer provas, aliás, preferem, de longe, "erasmus" e outros estrangeiros, exatamente porque esses, para além de acharem "razoáveis" os preços e as condições impostas, nunca pedem um recibo ou fatura válida em Portugal: se pedem, serve-lhes um comprovativo informal dos valores pagos para apresentarem no seu país), é um lugar tragicamente comum e a responsabilidade deste estado de coisas é do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que, deslumbrado com o turismo e as receitas que gera (*), se esquece das "pessoas reais", que ele é suposto representar e defender, esquecendo-se, nomeadamente, de obrigar a que seja respeitado o direito constitucional a uma habitação condigna [a conversa de que essas coisas não dependem do presidente do município mas do governo (que, "por acaso", até é um governo do partido do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, tratando-se, para além disso, de um município que tem "produzido" sistematicamente PM's e PR's) é uma conversa que não é honesta]. Portugal parece-se cada vez mais com Angola, onde os corruptos de Estado "vivem à grande e à francesa", gastando milhões por "dá cá esta palha", cujos filhos fazem "brilharetes" ao comprarem, por preços "glácticos", obras em leilões internacionais de arte; a "classe média" vive miseravelmente e a classe pobre, essa, vive como sempre viveu: em cubatas, ou bairros de lata, sem qualquer assistência nem serviços do Estado.

(*) um país que depende (ou depende em parte substancial) das receitas do turismo, é um país africano, não é europeu.

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