Sexualidade e perversão

Como outros autores do campo psicanalítico, Macary-Garipuy identifica no movimento queer a pretensão a um gozo sem restrições, ao "nomadismo sexual" e a uma "sexuação mutante" (MACARY-GARIPUY ARY, 2006, p. 45). Destaca ainda o fato da teoria queer não poder prescindir da relação entre linguagem, lei e poder, ainda que pretenda imaginar a linguagem sem um significante mestre que lhe dê lastro. No que se refere ao gozo, para esta autora o queer consideraria a possibilidade de um gozo extremo, não limitado pelo gozo fálico - e aqui a referência parece ser o sadomasoquista - mas, ainda para Macary-Garipuy, segundo a psicanálise, esse gozo se não for mortal, não será tampouco um gozo do corpo, e sim apenas um gozo da escritura, possível, portanto, exclusivamente no plano de uma ficção imaginária.


Na mesma direção, Flores (2010) acusa Butler e Wittig, tomadas como referências maiores da teoria queer, de, ao insistir no caráter discursivo do sexo, tomarem a sexualidade e o corpo apenas nos registros do imaginário e do simbólico, ignorando a dimensão do Real, no que este se articula à materialidade do corpo e à anatomia dos sexos. Ou, mais do que isso, de tentar submeter o Real à linguagem, posto que a teoria queer seria uma "crença em um real que se submete plasticamente à linguagem" (FLORES, 2010, p. 141).
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Em Flores (2010), tal movimento se faz a partir de uma leitura da perversão como transgressão dos limites colocados ao sujeito através da afirmação do impossível; recusa, portanto, da morte e da castração.
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Por outro lado, ao aproximar a teoria queer do registro do narcisismo e levantar a hipótese de que a indiferenciação sexual estaria a serviço da onipotência infantil, Chasseguet-Smirgel também a aproxima do domínio da perversão ao recorrer à ideia de recusa (déni), correntemente utilizada para traduzir o termo alemão Verleugnung, tomado pela maioria dos autores de tradição francesa, a partir do texto sobre o fetichismo (FREUD, 1927/2006) e da sua leitura lacaniana como mecanismo psíquico diferencial da dita estrutura perversa (DOR, 1987).
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Mas não se pode nem desconsiderar o uso corrente do adjetivo perverso na linguagem ordinária, nem deixar de perceber, no uso que psicanalistas de orientação lacaniana, inclusive Roudinesco, vêm fazendo dos termos perversão e perverso na crítica da sociedade contemporânea, que a recusa da diferença sexual, base do argumento que qualifica o perverso, se aproxima da maldade (ROUDINESCO, 2008) e aponta para os limites do humano, na medida em que a aceitação da diferença sexual - e da lei da castração, que lhe é correlata - seria fundante do humano (LEBRUN, 2008).

Tal recurso à perversão, referida a um modo de laço social, aparece ainda na proposição de Frignet (2002) de uma distinção entre transexuais, cuja estrutura seria psicótica, e transexualistas, os quais, por sua vez, se configurariam em sintoma de um funcionamento social perverso. 


(excertos de um ensaio de Eduardo Leal Cunha)

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