Dos "competentíssimos" empresários e "grandes" administradores tugas e da agitação e propaganda

Quando não é o AICEP, o Governo subsidia e apoia de muitas formas sessões semelhantes patrocinadas ou pela imprensa económica ou por associações empresariais, que funcionam como palco para Presidente da República, primeiro-ministro, vice-primeiro-ministro e ministros vários, da Economia e das Finanças em particular, irem lá falar de um Portugal fictício, amputado dos portugueses.

Os órgãos de comunicação têm sido muito pouco selectivos na cobertura destes eventos, o que já não é de agora, e, portanto, a propaganda tem eco. Sócrates tinha idêntico modus operandi. Mesmo que os governantes e porta-vozes partidários não digam nada de novo, têm uma grande cobertura televisiva, embora seja interessante ver como nos jornais generalistas, onde há maior triagem do interesse jornalístico, e menos espaço, a cobertura é menor, até porque toda a gente já percebeu que “nós por cá todos bem”. No meio disto tudo, o principal partido da oposição responde com os mais pífios cartazes que é possível ter, umas coisas delicodoces com velhinhos abraçados e uns jovens muito alegres, limpinhos e saudáveis a divertir-se com conta, peso e medida. Da próxima vez espero que coloquem gatinhos ou ursinhos de peluche.

O retrato que é feito de Portugal nestas reuniões de propaganda é espantoso e mereceria toda a história de O Rei Vai Nu. Porém, já há muito poucos miúdos irreverentes e os que, desesperados perante as falsificações governamentais, gritam por todo o lado que as gloriosas vestes do poder não existem são tratados como uns radicais cansativos que deviam “aprender” com o Syriza que não há alternativa.

Esta propaganda tem aspectos interessantes e que merecem ser analisados, até porque alguns dos temas vão sobreviver a este Governo, dando à nossa direita, dos novos e antigos interesses, um vade mecum ideológico que amplia e legitima esta propaganda. O seu “aparelho ideológico” e os seus “intelectuais orgânicos” (muitos dos quais são jornalistas e autores de blogues pró-governamentais) e os vários think tanks que surgiram em algumas universidades, dotados de financiamentos vindos de grandes empresas, movem-se com grande desenvoltura, porque nunca tinham tido tanto “conforto”, para usar uma expressão habitual de Passos Coelho.

A circulação pelo poder como assessores, membros de gabinetes governamentais, nomeações para cargos à revelia de qualquer currículo e controlo da Cresap, a utilização como extensão de poder de fundações como a luso-americana, consultorias, o patrocínio de encomendas, estudos e pareceres vai de vento em popa, de novo, numa forma muito parecida com o que aconteceu nos tempos de Sócrates. Esta máquina de replicação e eco faz desde o sale boulot (como, por exemplo, o ataque com base em falsidades a Sampaio da Nóvoa), atirando a tudo o que mexe e que possa perturbar o actual poder, até à prosápia científica de que eles é que são "a sério” e os outros são ligeiros divulgadores. Um dos poucos académicos que contrariaram as falácias de poder em matéria constitucional, Reis Novais, foi também assim tratado.

No meio deste ambiente de chantagem, exige-se por isso confrontar a nuvem de propaganda que cai em cima de nós todos os dias, fazendo o papel de, pela palavra, mostrar quais são as vestimentas do rei. Por exemplo, um aspecto interessante deste discurso propagandístico e da visão do país que transporta consigo é aquilo a que eu tenho chamado "um marxismo grosseiro", em que a classe de vanguarda senhora da História são os “empresários”, lutando contra os vícios do sistema, um dos quais é o “alto custo do factor trabalho”, outro é o Estado e outro é esta coisa absurda de ainda haver greves.

Os trabalhadores nunca são nomeados, quando se fala de economia. A economia é os empresários, mais, aliás, do que as próprias empresas, isto numa semana em que um estudo internacional revelava o papel da incompetência dos empresários portugueses na má qualidade da gestão e na falta de competitividade.

José Pacheco Pereira no Público (excerto com título diferente do original)

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