No bairro de Alfama os eléctricos

amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para
ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.
"Mas aqui!", disse o condutor e riu à
socapa como se cortado ao meio,
"aqui estão políticos". Vi a fachada, a
fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.
Roupa branca no azul. Os muros
quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma
senhora de Lisboa:
"será verdade ou só um sonho meu?"

Tomas Tranströmer

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