Húmus

A primeira edição do Húmus tem como sub-título a sugestiva nomeação de “Poema-Montagem”. Montagem, termo emprestado da linguagem cinematográfica, diz respeito ao trabalho de “concatenação dos vários planos de um filme, de acordo com particulares intuitos de organização sintáctica” (Reis 240). Helder reflecte sobre a montagem num texto publicado na primeira edição de Cobra (“Memória. Montagem”), começando por colocar a questão da própria matéria de que se compõe o poema, negando a mimesis enquanto único processo criador da arte. Para Helder, “os elementos com que o poema se organiza não estão na natureza”, porque “o poeta não transcreve o mundo, mas é o rival do mundo” (9). Helder define a montagem como “uma noção narrativa própria” (10) de cada autor, a “cuidada maneira de receber a memória, assitir à ressurreição do que foi morrendo, e morre, e vai morrer” (11).
Assim também a recepção/leitura de Brandão, que ressuscita um texto com cinquenta anos, montando-o segundo a sua noção narrativa, isto é, lendo-o. O resultado deste processo de montagem reflecte-se na transgressão da linearidade do discurso. No poema, ao contrário do discurso quotidiano, “os substantivos não são palavras, mas objectos distribuídos; e os adjectivos, por exemplo: as qualidades e circunstâncias da colocação dos objectos no espaço” (13). O poema é, assim, ao contrário do romance, um corpo com autonomia própria. É por isso que o que primeiro chama a atenção no Húmus de Helder é a visualidade do texto. Como que aludindo ao processo de “corte e cose” que o texto-base de Brandão sofreu, os versos começam no espaço deixado em branco pelo verso imediatamente anterior, sugerindo assim uma decomposição do próprio acto de leitura feito por Helder.
A montagem é, portanto, o processo principal pelo qual o poema de Helder estabelece e concretiza a leitura do texto de Brandão. Montagem seria, assim, a ligação das partes num todo com autonomia própria, o poema.

Há três epígrafes que interessa referir. A primeira parece colocar de lado a utilização irónica, ou paródica, do texto de Brandão. Trata-se de uma dedicação: “À memória de Raul Brandão”. Logo a seguir, Helder explica o processo que vai seguir, eliminando problemas que possam surgir em relação ao plágio, uma vez que o texto citado é explicitamente referido. Helder explica que o “material” que vai ser usado é composto por “palavras, frases, fragmentos, imagens, metáforas do Húmus de Raul Brandão”, sendo que a regra por que o poeta se rege é a de “liberdades, liberdade”. Finalmente, Helder inclui um provérbio sessouto, “A morte é sempre uma coisa nova”.

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