Freud, a Perversão e a história *

Maria Belo, na sua tese de doutoramento, explica que os portugueses são uns "filhos da mãe" (na minha ótica consequencia das "mães galinha", que não existem nos países protestantes, onde a autonomia do ser humano começa logo pela sua preparação para ler e interpretar a Bíblia, individualmente, sem a necessidade de "catequistas" e "doutrinadores"). No entanto, apesar da pertinência e do mérito, a análise de Maria Belo parece-me insuficiente para analisar a compulsão da posse, que gera tantos dramas, leia-se crimes, e a "súbita" (especialmente depois do governo Sócrates)  vaga de homossexualidade que, a par da baixa taxa de natalidade, é, na minha opinião, uma das manifestações da decadência de Portugal. Sem me reter na "decadência irreversível" de Portugal, proclamada por José Saramago, acho que faz falta uma análise detalhada do fenómeno, especialmente em locais "proletários", onde não seria de esperar que a homossexualidade tivesse significância, o que de resto contraria de forma exuberante a teoria marxista-leninista que inventou a "moral proletária". É certo que o próprio termo "proletariado" deixa margens a grandes discussões pois o que Marx definiu como sendo "proletários" surgiu historicamente da migração dos campos para as cidades, ou seja, os "proletários" originalmente eram os camponeses sem terras que fugiram dos campos: os artesãos, os produtores originais, deram origem não à classe dos "proletários" mas sim à classe dos pequenos e médios proprietários industriais, que empregaram esses camponeses migrantes (veja-se, por exemplo, a História do Capitalismo, de Michel Beaud). A homossexualidade masculina em Portugal, a sua afirmação grotesca, por vezes agressiva, quase sempre criando e/ou mantendo uma teia de cumplicidades e promiscuidades, que agravam uma corrupção endémica e reconhecida, deveria ser objeto de análise, com a psicanálise à luz de uma história dominada por totalitarismos afetivos, como o sentimento de posse, o sentimento de "traição" e a "intuição" de se conhecer a "verdade" (ou ter-se "99,9%" de certezas...), que se entrelaçam e reforçam num mecanismo de psicose circular, que determina a tal "decadência irreversível". Freud explica muito mas há que atender aos fatores específicos locais, para uma explicação mais consistente. O conceito dos "filhos da mãe", de Maria Belo, vai nesse sentido, dado que aplica a psicanálise geral a um contexto cultural particular. No limite, o conceito dos "filhos da mãe" explica efetivamente a atrocidade derivada da tríada posse-traição-certeza **, na medida em que o "filho da mãe" o é porque não foi devidamente castrado pela autoridade paterna, que a mãe se encarregou de bloquear. O problema é que esse conceito não explica o estádio anterior ao "filho da mãe", ou seja, se o estado anterior ao estádio do "filho da mãe" é idêntico ao estádio do "filho da mãe", a explicação do "filho da mãe" não é válida, dado que anteriormente existiu uma castração efetiva pela autoridade paterna e o sujeito era fundamentalmente o mesmo do sujeito "filho da mãe" que não foi sujeito à castração. Então ter-se-ia que recorrer a um fator mais universal (e simultaneamente mais particular à "casta" analisada) para se explicar características que afinal pré-existiam ao estádio do "filho da mãe".

* com "h" pequeno porque geográficamente circunscrita.

** a certeza é a "certeza" do psicótico e é nesse contexto que aqui deve ser entendida. Exemplos típicos disto são a "certeza" da traição do ciumento e a "certeza" de que os outros são também gays por parte dos gays portugueses (ou se não são, são mas disfarçam, ou são mas fazem o jogo, ou são mas ainda não sabem, que é o cúmulo da psicose delirante). Podemos eventualmente, no último exemplo, estar perante uma "psicose étnica", restrita a um grupo bem delimitado, sem aplicação universal dentro da própria categoria designada por "comunidade gay", que deve ser interpretada como (mais) uma manifestação da tal cultura/mentalidade totalitária, uma cultura de imposição, sob pretextos e "lógicas" variadas, uma cultura fascista em que uns procuram impôr as suas preferências a todos ***, disfarçada com ares de "modernidade", que tem de ser travada por todos os meios. É frequente estes sujeitos serem casados e executarem as suas tentativas de engates gay nas "barbas" das suas mulheres, que fingem que não vêm, não ouvem nem sentem. As mulheres portuguesas são co-responsáveis das "perversões étnicas" (o ciúme é obviamente uma perversão étnica, típica do sul da Europa e povos colonizados pelos europeus do sul (&), e povos "balcânicos", primordialmente porque, enquanto mães, criaram seres perversos, não "castrados" e "naturalmente" propensos a manipularem @s outr@s, e, enquanto mulheres, pela sua falta de personalidade, autonomia e capacidade para romperem um círculo doentio e aberrante, em que elas são uma espécie de palhaços-trabalhadores-donas de casa, vítimas e cúmplices. Obviamente que um Estado dominado por corruptos, ocupados nas suas negociatas à sombra das responsabilidades que têm enquanto dirigentes e decisores, foi incacapaz de exercer a autoridade e força de Estado para colocar um travão e isto.

(&) a tese freudiana não contraria o que acabo de preconizar. A homossexualidade atual, com especial incidência nos países "ex-machistas", reforça a teoria freudiana de que o ciúme visa a destruição da relação heterossexual (§) e não implica de todo que o ciúme não seja uma "perversão étnica". É-o desde o momento a que tradicionalmente assimilamos "latinidade" a  machismo (disfarçado de "virilidade").

(§) Freud disse que o ciúme é uma manifestação de homossexualidade na medida em que resulta na destruição da relação heterossexual. Nunca definiu o ciúme como uma perversão. No mínimo, se não se aceitar definir o ciúme como perversão (coisa que defendo), o ciúme [no sentido "latino":  obsessivo, controlador e redutor da individualidade da outra pessoa] deve ser tido pelo menos como uma "aberração étnica".

*** apesar (ou talvez porque) das suas preferências serem consideradas por muit@s uma perversão. E não vou avançar muito neste campo pois teriam de ser estudados os mecanismos de obsessão, tipicamente mecanismos de relevância clínica, que caracterizam frequentemente determinadas "opções", que o deixam de o ser porque são compulsivas, estando portanto fora de controle daquele que delas padece. A nível social é indeferente que sejam compulsivas ou conscientemente determinadas, se é caso clínico ou é perversão pura e dura, ou seja, crime (&&), se disso resulta a coação, ou tentativa de coação, de outrém, passado a ser um problema do Estado, que existe essencialmente para proteger @s cidadâs/ãos dos totalitários, dos criminosos e dos corruptos.

(&&) Lacan deixou bem claro que a "grande perversão" não é um caso clínico, que o "grande perverso" age em plena consicência do mal que causa (sendo esso o móbil que conduz ao seu "gozo" no "acto", uma vez que o "gozo" do perverso redide na redução d@ outr@ a utensílio por ele manietado e ao seu serviço). O pedófilo, o violador, o assassino em série, sabe bem o mal que causa. O seu comportamento sendo compulsivo não é considerado um caso clínico: não é passível de análise psicanalítica, que ele iria viciar para "controlar" o analista, não tem "cura" e é determinado pelo "gozo" que experimenta ao reduzir @s outr@s a mero objeto que possui, usa e do qual, no limite, decide da vida e da morte. O grande perverso é por essência um criminoso "nato" e absolutamente consciente: dessa consicência advém-lhe o "gozo" que experimenta na prática da submissão d@s outr@s. Obviamente que não é "curável" e repetirá os seus atos enquanto não fôr definitivamente travado. Há concerteza aqui algo de perturbador - e nada auspicioso para Portugal - ao pensar-se que o "filho da mãe", definido por Maria Belo é basicamente o perverso que acabamos de tratar. Na verdade Maria Belo "limita-se" a aplicar a definição lacaniana da perversão ao contexto português. A definição do "filho da mãe" é a definição do perverso, um ser não "castrado", incapaz de se auto-limitar e capaz de escravizar @s outr@s para "gozo" próprio. Também a questão da mãe, que impede a castração, que se interpôe, defendendo incondicionalmente o filho face à figura paterna, "castradora", que diz não e é mesmo não, impedindo assim a sua "castração", a aquisição de limites... afinal não é isto a teoria básica e "clássica" da perversão?

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