Da normalidade

Enquanto tomava café chamou-me a atenção um programa em que tratavam o assassinato de um pai pelo filho e, quando ouvi um vizinho da vítima e do assassino (que compartilhavam a mesma habitação) dizer que eram uma "família normal", veio-me imediatamente à ideia a atroz normalidade de parte deste "bom povo". Valeu um dos comentadores que imediatamente rematou, dizendo que de normal aquilo não tinha nada pois o assassino, um adulto, vivia à custa do pai que já tinha ameaçado anteriormente. Há conceitos de normalidade que são um insulto à normalidade que, ainda que histórica e "dialética", pode ser consensualmente estabelecida, em determinada época, entre povos de culturas similares, ainda que seja uma tarefa complexa dado que as nações são constituídas por culturas variadas.

Basta abrir as páginas de um diário "popularucho" para se perceber a quantidade de aberrações, e, se afinal o que se lê será somente a ponta de um iceberg negro, devemos questionar se não haverá demasiadas anormalidades para um povo de 10 milhões de habitantes. Poderá a mentalidade feudal das "elites" e a grande corrupção institucional dos "grandes" (onde também entram descendentes das classes populares de outrora) - que deram origem a uma desigualdade terceiro-mundista, que se espelha diretamente na educação e na cultura - ser a causa deste nível de perversidade? A realidade é que na atualidade os filhos das classes inferiores de outrora tiveram acesso "de facto" ao ensino superior... ainda que em termos de realização no longo prazo somente os descendentes das classes altas (no grande poder económico-administrativo e no alto aparelho diplomático e jurídico) e médias (na ciências ditas "duras" e nas "ciências sociais", nomeadamente) alcancem lugares de grande influência.

No fundo manteve-se uma cultura da atrocidade, sob capa de uma democratização dos vários poderes e da cultura. Os políticos fizeram mudanças cosméticas, para as estatísticas; a cultura e as mentalidades mudaram cosmeticamente, dentro do padrão do qual brotaram, quando se exigia do,  rotura cultural e uma mudança de paradigma, que ao longo de quatro décadas de democracia não aconteceu e dificilmente acontecerá, se tivermos em conta a história do país, desde o seu nascimento até à atualidade, onde as "boas elites", como os grandes escritores, sempre ácidos na crítica à mentalidade dos portugueses, especialmente das suas "elites", nunca tiveram impacto suficiente para forçarem uma rotura. O "povo" anda e sempre andou distraído com futebóis, telenovelas e programas "real lives", uns a seguir aos outros, que, muito espertamente, as "elites" feudais, ou "feudalizantes", sempre lhe proporcionaram, enquanto discretamente concretizaram PPP's criminosas, com lucros absurdos, estabelecidos sobre dados irreais (dupla trafulhice), e outras negociatas e contratos brutais, pagos pelo pacóvio, sempre contente com os futebóis, pacóvio que só levanta a voz e a mão para cometer atrocidades contra os ainda mais fracos e débeis. Os contratos são reconhecidamente criminosos e lesivos do superior interesse do Estado (à sombra do qual se fustiga o pacóvio), mas, muito estranhamente, não se lhes coloca um termo imediato, sem renegociação - porque aquilo é absurdo de mais para ser renegociadado - pois são contratos criminosos que atentam contra o Estado de Direito e os contribuintes, para além de terem sonegado informações (itens secretos!) ao Tribunal de Contas. Os bancos do regime lá garantiram a boa circulação de luvas bilionárias para as offshores, de que não há notícia, porque evidentemente banquetes como os contratos das PPP implicam grojeta da grossa. E depois o pacóvio ainda paga os crimes dos bancos do regime que mediaram toda esta trafulhice inaudita.Tudo isto é demasiado pornográfico para ser real (por menos em outros lugares aconteceram guerras civis).

Obviamente que um ensino exigente conduziria o "povo" a uma autonomia crítica e reflexiva que causaria a ruína de todo o sistema e ao afastamento das "elites"... O outro lado da questão é que os programadores dão ao "povo" o que ele quer, ainda que eventualmente desejem e trabalhem para esse resultado... A ignorância funcional alimenta-se a si própria e origina uma sociedade aberrante que só pode ruir. Voltando ao programa o mesmo comentador, quando questionado, respondeu que o "caráter" das pessoas tem uma grande percentagem de genética. Por mais "multi-culturalistas" que sejamos esta é uma verdade incontornável, dado que ao longo dos séculos a cultura molda a genética: a uma cultura da atrocidade corresponde uma genética da atrocidade, gerando-se uma circularidade difícil de quebrar. As culturas da atrocidade são autofágicas. No que a Portugal diz respeito José Saramago vislumbrou-o antes de todos.

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