PRAXE E PRAXES: TRADIÇÕES OU SISTEMAS DE REPRESSÃO EM REDE?
Professor Luís Reis Torgal [ensaio originalmente publicado na revista Via latina. Ad Libitum, Março de 2014, pp. 14-21, editada pela Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra]
Praxe,
praxes, costumes, rituais, tradições…
A
“praxe”, do grego práxis, que significa “prática”
(“o que se pratica habitualmente”), deveria fazer parte menos de
qualquer regulamento do que do seu uso continuado, evolutivo e
correcto. Só por isso se diz que a “praxe” tem a ver com a
“tradição” (do latim tradere, transmitir), que começa
num tempo indefinido, passa de geração em geração e vai-se
integrando no espírito de uma comunidade, que a respeita ou critica.
É nesse sentido que qualquer regulamento ou código da praxe é
discutível e, a existir, só deve, quando muito, aclarar o que é
afinal um “costume”, esse sim que deve ser constantemente
actualizado. “Praxe”, palavra introduzida na língua portuguesa
através do latim no século XVII, mas só referida às práticas
académicas no século XIX, tem, pois, um sentido amplo e pouco
definido, confundindo-se naturalmente com costumes, rituais,
tradições… Não fugirei também dessa dimensão lata e da
complexidade e indefinição do conceito.
A praxe
ou as praxes académicas — entendendo aqui Academia no seu sentido
amplo — não dizem respeito somente aos estudantes, mas também aos
professores e até funcionários e, afinal, a toda a instituição,
neste caso a toda a comunidade universitária. Digo isto porque se
pensa erroneamente que a praxe é apenas a acção de “praxar”,
palavra estranha que no meu tempo não existia, o que indicia o
sentido diferente — em certos casos terrivelmente repressivo e de
humilhação — que têm hoje as praxes académicas. A praxe diz
respeito, por exemplo, ao uso da “capa e batina” (ou outra veste
estudantil) e do traje académico do professor, à formação e à
vida das “repúblicas” (em certos casos contrárias às praxes e
a certas tradições), às festas estudantis (“queima das fitas”
e “latadas”, na prática coimbrã), ao modo como as cerimónias e
actos académicos (doutoramentos solenes, entre eles os doutoramentos
honoris causa, e mesmo os doutoramentos científicos) se
desenvolvem… Como se diz em linguagem académica, quando se quer
justificar uma certa forma de estar ou de fazer que tem uma
explicação difusa: “é da praxe…” Todas estas práticas têm
a sua história, umas que começamos por encontrar nos mais velhos
Estatutos da Universidade, outras que dizem respeito a costumes que
não sabemos quando se iniciam e que só sabemos que existiram desde
há muito, porque alguns documentos ou algumas obras, como sucede com
o rico património que constitui as memórias estudantis, os
testemunham.
Coimbra,
como seria de esperar pelo facto de ser a universidade portuguesa
mais antiga (do final do século XIII, ainda em Lisboa, no século
XIV ora em Coimbra ora em Lisboa, outra vez em Lisboa de 1377 ao
século XVI, e em Coimbra, definitivamente, desde 1537), é no nosso
país a mãe de todas as praxes, como terá sucedido com outras
antigas universidades europeias. Em algumas universidades, como é o
caso paradigmático de Coimbra, mantiveram-se, noutras desapareceram
em parte ou completamente, ou foram reinventadas. Na verdade, a praxe
ou as praxes ou se tornaram fora de moda, sendo consideradas
inadequadas aos novos tempos, ou se mantiveram, entendendo-as mesmo
alguns como “tradições culturais”, que ajudaram, no caso de
Coimbra, a consolidar a ideia de que a Universidade deveria ser
considerada como “património da humanidade”. Mas o que as praxes
(ou algumas praxes) originaram, sem dúvida, foram duras polémicas,
como aquela que hoje vem ao de cimo com os tristes acontecimentos da
praia do Meco.
As
praxes em rede
De
Coimbra irradiaram os costumes ou as praxes para instituições do
ensino médio-superior existentes no século XIX, para as
universidades e os liceus no século XX, e para escolas de ensino
superior, público e particular, no final do século passado e no
século XXI. A “capa e batina” do estudante (alteração burguesa
do hábito talar eclesiástico, com a batina curta com golas de seda
e a camisa branca com laço ou gravata) tornou-se o traje normalmente
usado pelos alunos nas Universidades de Lisboa ou do Porto (criadas
em 1911) ou nos liceus, de Braga, da Guarda, de Évora e de outros. O
“hábito talar” do professor (simples adaptação desse mesmo
traje do clero, mantendo a capa até aos talões ou calcanhares e a
batina curta fechada, mas substituindo o cabeção ou simplificando-o
através de uma vulgar camisa branca apertada no primeiro botão) foi
assumido pelas mesmas universidades na Primeira República.
Se a
“capa e batina” foi desaparecendo em Lisboa, manteve-se no Porto,
onde os trajes académicos sobreviveram, em parte graças à presença
de estudantes de Coimbra que ali iam terminar os cursos de engenharia
ou de farmácia, assim como a “queima das fitas” se tornou praxe
nessa academia, onde também se constituíram “repúblicas”,
embora com menos identidade do que em Coimbra. O mesmo sucedeu no
Brasil, onde persistem “repúblicas” em Ouro Preto (Minas Gerais)
e se adoptaram algumas praxes de iniciação.
Uma mais
completa análise deste e doutros temas (alguns referidos a seguir)
podem ser vistos, entre outros, nos estudos de Alberto Sousa Lamy,
António José Soares, Armando Carvalho Homem, António Nunes e
Manuel Carvalho Prata. Eu próprio escrevi um longo texto sobre os
doutoramentos na Universidade de Coimbra.
A
invenção das praxes
Mas as
tradições também se inventam (como diria o historiador inglês
Eric Hobsbawm),
inclusivamente através de portarias, como aquela que, em 17 de
Novembro de 1945, instituiu um traje próprio para os professores da
Universidade Técnica de Lisboa (Portaria n.º 11.170), que havia
sido criada no tempo da Ditadura Militar, em 1930. Uma beca longa,
até aos pés (poderia dizer-se talar), substituiu o “hábito
talar” de Coimbra. O mesmo sucedeu com a Universidade de Lisboa, no
tempo do reitorado de Marcello Caetano, nos anos 60, embora a beca já
fosse usada na Escola Médico-Cirúrgica e se tivesse pretendido
generalizar o seu uso em todas as faculdades desde a segunda e a
terceira décadas do século XX. O mesmo veio a suceder mais tarde na
Universidade do Porto. As praxes dos rituais e das cerimónias
universitárias mantiveram algumas características, se bem que se
simplificassem, tendo como referência o que sucede e sucedeu, desde
as suas origens, com a Universidade de Coimbra, cuja complexidade
levou, todavia, a que se escrevesse, não há muitos anos, um
“regulamento” orientador.
Foi
depois do 25 de Abril de 1974, nos anos 80-90 do século XX, que, com
o surgir das universidades novas, de carácter estatal (as primeiras
criadas ainda em 1973) e de carácter privado, se verificou o boom
dos costumes académicos, uns simplesmente importados (ou mal
importados) de Coimbra, outros que constituíram verdadeiras
invenções. No que toca ao traje dos professores pouca inovação se
verificou — a beca ou toga, mais comprida ou mais curta, passou a
ser fundamentalmente a sua base —, mas o mesmo não se poderá
dizer do traje estudantil, que teve variantes em cada universidade,
ainda que a “capa e batina” fosse a matriz fundamental. O caso da
Universidade do Minho é paradigmático da inovação, diríamos
“conservadora”, pois, ultrapassando séculos, foi à procura de
um traje provavelmente usado pelos estudantes (e talvez não só) no
século XVIII, como mais ou menos seria usado noutros locais onde
havia estudantes, como era o caso de Coimbra, cuja correcção no
vestir era vigiada pela Polícia Académica (os “archeiros”, que
nas cerimónias usavam e ainda usam a “archa”, espécie de lança
que era símbolo da autoridade). Se em Coimbra a luta estudantil do
início dos anos 60 do século XIX contra o rigorismo disciplinar,
comandada por estudantes como Antero de Quental ou Alberto Sampaio,
originou a demissão do reitor, Basílio Alberto de Sousa Pinto,
velho liberal do vintismo, e o início da simplificação do traje
académico, que se foi transformando na “capa e batina” acima
referida, em Braga e Guimarães adoptou-se na Universidade, mais de
um século depois, o traje que teve como modelo o que está
representado na bela azulejaria do antigo Paço (hoje pertencente à
Reitoria da Universidade do Minho) que inclui uns calções pretos
compridos, no caso dos rapazes, as meias pretas altas, uma espécie
de casaco preto, um chapéu tricórnio e uma capa.
Afinal
cada universidade quis assumir a sua identidade, até no acto
diferente do trajar, fugindo algumas, pelo menos um pouco, à
tradicional “capa e batina”, que chegou a ser considerada como
“traje nacional” do estudante português, não só das
universidades como dos liceus.
As
praxes de “mobilização” e de “gozar os caloiros”
Reiniciaram-se
também nos anos 80-90 as praxes de “mobilização e gozo” (como
era corrente na gíria dos estudantes de Coimbra, regulamentadas
outrora pelo polémico Código da Praxe de 1957 que, todavia, previa,
em determinadas condições, organizações de anti-praxe, que, na
prática, sempre existiram, ao longo dos séculos). Na verdade,
quando se fala hoje dos excessos da praxe circunscreve-se esta à
área desta prática estudantil, sempre discutida, ou seja, a ritos
de iniciação que talvez sempre tenham existido, na Universidade de
Coimbra, assim como em outras universidades do mundo, nomeadamente
nos colégios ingleses, com radicalismos humilhantes que originaram
debates e duras lutas estudantis. E o mais significativo é que essas
praxes em muitos casos foram codificadas ou recodificadas e
continuaram a ser reguladas por “conselhos de veteranos”
(formados pelos estudantes com mais matrículas do que o respectivo
curso), tendo à frente o dux veteranorum (o mais antigo
desses veteranos) se não por um qualquer outro conselho da praxe,
como sucede com o Conselho Oficial da Praxe Académica (COPA) da
Universidade Lusófona, onde essas praxes parecem ter assumido um
carácter ainda mais excessivo.
O mais
lamentável, portanto, é que essas praxes — que existem e são
mesmo praxes, no sentido de “práticas” — não se
restringem a formas de iniciação e de integração inofensivas,
como era mais comum no nosso tempo (a “mobilização” para fazer
um discurso em público sobre um tema mais ou menos disparatado, ou
fazer uma declaração de amor a uma jovem ou a uma velha senhora que
passasse, ou mesmo colaborar numa “tourada” a um professor que
desse a primeira aula e que, depois dessa “brincadeira”, era
saudado respeitosamente pelos estudantes e pelos colegas), mas surgem
como formas humilhantes e até obscenas de “gozar” um “caloiro”
ou uma “caloira”, ocorrendo não apenas no início do período
escolar, mas prolongando-se por todo o ano. Por outro lado, raramente
atingem a forma de transgressão académica e política, como sucedia
outrora nas “latadas”, com que se abria o ano lectivo, onde os
“caloiros” levavam cartazes com piadas à universidade e aos
professores ou à política do Estado Novo, algumas que não passavam
pelo crivo da censura. E deve salientar-se que por vezes esses actos
de prepotência e humilhação são hoje mais comuns quando
praticados por raparigas ou contra raparigas, o que na minha época
de estudante era impossível, pois as mulheres estavam fora da praxe,
tendo passado a usar “capa e batina” apenas a partir dos anos 50.
Obviamente
que não estou a defender esse tipo de praxe do “meu tempo” —
como não defendo outras praxes que surgem codificadas recentemente
para cerimónias e provas científicas, como sucede com o dever de os
membros do júri e o candidato levarem “hábito talar” nas provas
de doutoramento, que mais parece querer dar dignidade a uma prova que
se desvalorizou com o “processo de Bolonha” (Regulamento
Académico, Regulamento n.º 315/2013, da Universidade de Coimbra, de
27 de Julho de 2013, artigo 79.º) — , mas salientar que não se
admite agora, nem nunca, formas estranhas de “praxar”, que (como
se disse) é uma palavra nova na gíria académica.
A
praxe, a crise do país e do ensino superior
A luta
contra essas praxes é de sempre, embora terá de se dizer que por
vezes a sua prática e o seu castigo acabou por unir os estudantes
(sobretudo os mais progressistas, naturalmente mais avessos a elas)
contra os poderes instituídos, como sucedeu com a greve de 1892, que
afinal resultou de um castigo aplicado a um estudante que exagerou no
uso do famigerado “canelão”. A Academia entrou em greve ou “fez
parede” (na linguagem do tempo) e os estudantes republicanos, como
Afonso Costa e António José de Almeida, foram aqueles que mais
resistiram, perdendo o ano, porque se recusaram a aceitar subscrever
um documento que procurava justificar as suas faltas, o que levaria a
que o Estado perdoasse as sanções aplicadas aos alunos grevistas,
greve que afinal resultara, em última análise, de excessos
praxísticos, a que a própria autoridade académica e o ministério
presidido por José Dias Ferreira procuravam pôr termo.
Deve,
porém, dizer-se que o debate sobre a praxe e as lutas contra a praxe
surgiram sobretudo em duas situações: em tempos mais avançados
politicamente e em momentos de afirmada oposição a regimes e
sistemas políticos conservadores, autoritários e repressivos. Assim
sucedeu, em relação ao primeiro caso, com a Primeira República e
depois do 25 de Abril, em que as praxes (no sentido amplo e no
sentido restrito) foram praticamente extintas na sua primeira fase,
regressando quando se iniciou o seu processo tendencial de viragem
para formas mais moderadas e conservadoras: e, no que diz respeito ao
segundo caso, com a Ditadura Militar (1926-1933), nos anos 40 do
século passado, em pleno Estado Novo, acompanhando o fim da segunda
guerra mundial e na esperança da instauração da democracia, nos
anos 60, em que se tornou mais dura a luta estudantil contra o regime
de Salazar-Caetano, em tempo de guerra colonial, e agora em tempo de
democracia formal ou de uma oligarquia de maioria absoluta,
neoliberal, com o fantasma do endividamento e a presença da troika.
Mas deve ainda notar-se que foi com a lógica da autonomia académica,
e afinal das praxes em sentido amplo, que alguns interessantes
movimentos académicos surgiram, como a ocupação pelos estudantes
da "Bastilha" — o Colégio de
S. Paulo o Eremita, na Rua Larga, onde funcionava o "clube dos
lentes" e que foi "tomado" pelos estudantes em 25 de
Novembro de 1920 — que se tornou um dia de comemoração da luta
estudantil, e com o uso do luto académico em Coimbra, com
batina fechada, nas crises académicas dos anos 60, ou até no
“futebol de causas” (título do excelente filme de Ricardo
Martins) que constituiu a final da taça de Portugal de 1969.
Uma
pergunta fundamental para terminar: como acabar com as praxes
abusivas?
Não
será com a sua proibição, e muito menos cerceando aquilo que
constituiu um trunfo político e social da Academia e da
Universidade, a chamada “autonomia”, base das suas diversas
lutas contra os “sistemas políticos” de autoritarismo e a favor
de ideais nobres. Na verdade, o que se passa neste país é afinal
talvez a causa destes exageros da praxe.
A
regulamentação da vida universitária e a limitação da
representação de professores, estudantes e funcionários nos órgãos
universitários, transformando-os em simples órgãos de gestão e de
burocracia, fez com que se perdesse o sentido da “universidade”,
como comunidade de ensino, de cultura, de investigação científica,
de formação profissional, e de consciencialização e intervenção
cívicas. Do mesmo modo, o desemprego e o economicismo pragmático da
sociedade em que vivem não ajuda os estudantes a formar uma cultura
social, afastando-os dos problemas da comunidade. A massificação
das universidades se tornou mais vulgares os graus, sobretudo da
licenciatura e do mestrado (o que origina estatísticas de sucesso,
que se costuma antes chamar “sucesso das estatísticas”), também
veio reforçar a afirmação de uma elite, ainda que falsa,
desenvolvendo a ideia de “doutorice”, sempre presente na
mentalidade portuguesa. Por isso os estudantes — numa sociedade em
crise, em que a intervenção seria mais natural — estão cada vez
mais fora da acção política, como cidadania, embora possam estar
mais próximos de praxes inúteis e da vida partidária das “jotas”,
que lhes podem dar o emprego que a competência (quando existe) não
lhes confere. Portanto, pode dizer-se que para terminar com o abuso
da praxe será necessário alterar os valores da sociedade, que se
guia mais pelo espectáculo (por vezes obsceno, como se verifica, por
exemplo, na televisão e até na vida política) e pelo interesse do
que pela ética.
Mas,
mais directamente, seria necessário também que terminasse o sistema
de organização da praxe, que deveria desformalizar-se e deixar de
estar nas mãos de um qualquer “conselho de veteranos”, hoje
completamente desajustado às concepções democráticas de
sociedade. Como práticas de iniciação, de simples significado
consuetudinário, a “praxe” poderia assumir, quando muito, o tom
de simples “brincadeira”, mas deveria apresentar-se sobretudo
como acção pedagógica e inclusiva, sem jamais ter a forma abusiva
e humilhante com que, na maioria dos casos, se revela Só deste modo,
numa lógica de cultura tradicional, poderá constituir um
património, como certos hábitos e costumes de outras comunidades
são, em muitos casos, valores a conservar, desde que se adaptem ou
se vão adaptando à realidade e aos princípios éticos que devem
ser erguidos em qualquer caso, mas sobretudo em escolas de ensino
superior, contrariando sim a competição desenfreada e o
entretinimento sem regras para que os jovens são constantemente
desafiados através da “máquina da noite”. Entendo que os
estudantes possam e até devam ser rebeldes, que transgridam as
regras da sociedade pragmática em que vivem, mas essa transgressão
deve coexistir e coordenar-se com valores culturais de cidadania.
Praxe…
Que praxe? As universidades, e os seus reitores, e as associações
académicas, e as suas direcções, devem promover um amplo debate
sobre o tema, talvez não apenas relativamente às praxes estudantis,
mas aos cerimoniais e actos académicos em que se verifica também,
de outro modo, o fenómeno da praxe. Todavia, não se deve desviar as
atenções de algo que será ainda mais importante do que a praxe ou
as praxes, ou seja, a existência digna e exigente da Universidade,
ou das universidades e dos institutos politécnicos, que constituem
afinal, numa lógica binária, o ensino superior português, público
e privado. Se as escolas de ensino superior, assim como as de ensino
básico e secundário, e os seus professores e estudantes,
continuarem a ser entendidos como simples organismos e peças de
produção de uma sociedade em que a educação, a gciência e a
cultura são desconsideradas e se professores, estudantes e
funcionários não exercerem o seu espírito crítico na sociedade,
que têm obrigação de conhecer cada vez melhor, não se poderá
ultrapassar a situação agora, e outras vezes, detectada, que, se
resultou da consciência de uma tragédia, também assumiu formas de
espectáculo difundidas e aproveitadas por alguns órgão de
comunicação, que preferem, em certos casos, mais revelar o
“fenómeno” (que é, no seu significado original, “o que se
mostra”) do que o seu conhecimento rigoroso e crítico. O uso
abusivo da praxe é afinal, agora como noutros tempos, apenas uma
demonstração da crise que afecta a sociedade.
Redes,
globalização, “desligamento”… O papel da Universidade
Na
sociedade desenvolvem-se redes, redes de toda a espécie. Mais ainda
numa sociedade de globalização em que hoje vivemos. O que é
necessário é que essas redes sejam para benefício do Homem e não
para seu prejuízo, como procurou mostrar recentemente, no que toca
ao mundo digital, o filme Desligados (Disconnect), do
realizador Henry-Alex Rubin, que lamentavelmente passou quase
despercebido. É que a estratégia do capital que domina esta
sociedade tem como objectivo que fiquemos exageradamente “ligados”
ao mundo virtual, através de máquinas cada vez mais aperfeiçoadas
(que devemos utilizar com critério), para nos “desligar” dos
verdadeiros problemas do mundo. Afinal continua actual o discurso de
1930 de Ortega y Gasset sobre a Universidade, sobre os mass
media (que não se chamavam assim, e que agora até se chamam
mídia, devido à anglicização do termo latino e da sua
divulgação) e sobre a sociedade em crise. Dizia o filósofo
espanhol, que também escrevia e publicava em jornais, manifestando
consideração pelos seus camaradas periodistas, numa oração de
sapientia em que defendia uma Universidade cultural e
interventiva: “Quanto mais importância
substantiva e duradoira tem uma coisa ou pessoa menos falarão dela
os jornais, e, ao invés, destacarão nas suas páginas o que esgota
a sua essência em ser um «sucesso» e dar lugar a uma notícia.”.
Numa Europa de “cabeça para baixo e de pernas para o ar”,
inculta (apesar de se dizer o contrário), apelava para a
Universidade, atribuindo-lhe um papel provavelmente exagerado,
próprio do tempo :
É,
pois, questão de vida ou de morte para a Europa rectificar tão
ridícula situação. Para isso tem a
Universidade que intervir na actualidade como Universidade,
tratando os grandes temas do dia a partir do seu ponto de vista
próprio — cultural, profissional, científico. Deste modo não
será uma instituição só para estudantes, um recinto ad
usum delphinis, mas uma instituição que,
envolvida na vida, nas suas urgências, nas suas paixões, há-de
impor-se como um “poder espiritual” superior frente à Imprensa,
representando a serenidade frente ao frenesim, a séria agudeza
frente à frivolidade e à verdadeira estupidez.
Então
voltará a ser a Universidade o que foi nas suas melhores horas: um
princípio promotor da história europeia.
A
Universidade ou, mais latamente, o ensino superior, integrado no
problema vasto do Ensino e da Sociedade, é, pois, o que nos deve
sobretudo preocupar e menos as suas formas complementares ou
suplementares, como é a “praxe” ou são as “praxes”, embora
as devamos debater e combater nas suas actividades radicais,
desactualizadas, inúteis e até perigosas, como se tem provado em
vários casos. Não alteremos, pois, a ordem das coisas.

