Dos Mirós

É impressionante que um governo que fez, até há poucos dias atrás (porque entretanto já terá feito mais alguns), ajustes diretos no valor de mil milhões e 300 milhões de euros vá vender, por 36 milhões de euros (ou 50 milhões, como quem tutela a negociata da parte portuguesa afirma) uma coleção de 86 obras de um artista estabelecido historicamente. Obras menores dizem. No mundo da crítica de arte é possível que os mesmos que hoje dizem serem as obras "menores", amanhã, sob outra análise (ou outros incentivos...), as classifiquem de "maiores". 86 obras permitem fazer uma boa exposição temporária. Se atendermos que o custo dos bilhetes para as exposições temporárias em Londres é de, grosso modo, 15 libras, e, se devidamente divulgadas (como não deixaria de acontecer com uma exposição com 86 obras de Miró), há-as que recebem milhões de visitantes, já se vê a tremenda negociata que pode ser comprar 86 Mirós por 50 milhões de euros. É que com a "boa crítica" a exposição pode passar a ser uma exposição itinerante mundial. Basta lembrar que a caveira-foleira-kitsh, cravejada a diamantes, de Damien Hirst, percorreu o mundo com filas de gente a pagarem bilhete para a verem (uma obra). Fora o merchandising (t-shirts com a imagem da caveira, prints numerados e assinados, em séries ilimitadas, prints 3d em plástico translúcido, canecas, e, pelos vistos, até skates!). Claro que um génio como Miró não pode competir com um esperto como Hirst, mas o "grande público" não é tão burro como pretendem que seja.

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