Acho muito interessante o trabalho de Graciela Haydée Barbero

Graciela, na página 17, ao falar das "normas do convívio civilizado de nosso mundo liberal", remete a aceitação da homosexualidade a culturas e civilizações determinadas, o que de per si invalida qualquer tentativa de generalizar a "normalidade" da homosexualidade, coisa que de resto seria do domínio da pura ficção e nem sequer é necessário irmos aos países da África Central. Basta acontecer uma viragem política em determinados países europeus e em determinados Estados americanos para todas as leis que "normalizaram" a relação homosexual serem postas em causa, muito mais rapidamente do que aquilo que demoraram a impôr-se. 

Não é verdade que atualmente o conceito de perversão esteja "muito misturado" (pag 21) com a noção de homossexualidade, quanto ás "outras expressões de desejo não convencionais" podem ser potencialmente qualquer coisa. Lacan, que trabalhou especialmente a psicose e a perversão, fala-nos no "grande perverso", do qual o assassino em série e o pedófilo são os exemplares por excelência. Qualquer destes "grandes perversos" atingem o seu "gozo" no exercício de "outras expressões de desejo não convencionais", expressão que em si mesma nada diz e não tem qualquer relação de necessidade com a homossexualidade, mesmo que os executores o sejam.  


Convém assinalar-se que a noção de "gozo" é substancialmente mais fundamental, para se compreender a psicanálise lacaniana, que as noções que Graciela refere (Real, Simbólico, Imaginário e Sintoma). 

Também não é verdade que a noção de "estrutura psíquica" tenha sido relegada para segundo plano: é esta noção que "garante" a "normalidade" da homossexualidade e é esta noção que nos permite compreender as diferenças entre a homossexualidade feminina e a masculina, que não são equiparáveis exatamente porque as estruturas psíquicas do homem e da mulher não são similares. 


Quanto à "estrutura perversa" (do perverso?), não sei onde Graciela foi buscar essa ideia (há muitas versões dos seminários do Lacan) mas o que caracteriza o perverso é o seu "gozo" e não a "estrutura psíquica", que regra geral é psicótica. O perverso não é um caso clínico porque o perverso sabe muito bem o que faz e o que faz é ditado pelo "gozo", pela compulsão ao seu "gozo", pela compulsão ao preenchimento do "pequeno objecto a", que é um espaço vazio, que permanecerá vazio (o perverso não aceita a castração e por isso acredita no preenchimento do lugar do vazio *), não por qualquer "estrutura psíquica" particular. Aliás, se tivesse de dar uma definição rápida do perverso diria que é aquele que rejeita a "castração", ou seja, rejeita qualquer limite para o seu "gozo" e nesse sentido transforma os outros em meros objetos na prossecução do preenchimento (impossível) do lugar do vazio. É aqui que eventualmente se poderia encontrar uma eventual conexão estrutural entre homossexualidade e perversão. A patética insistência de muitos homossexuais, a sua persistência em não querem perceber que não são desejados, quando não o são, em criarem, na sua cabeça, jogos de atração/repulsa (para eles evidentes!) por parte do "outro", jogos esses que não existem, e não existindo qualquer base "real" para essa interpretação ter sido assumida, leva-me a crer na existência de uma forte compulsão que levaria à objetualização dos outros, caso tenham oportunidade para isso. Mas se isto pode acontecer, e acontece, na relação heterosexual (e não vou adotar a leitura freudiana, que me parece simplista e redutora, que diz que o ciúme visa destruir a relação heterosexual, logo o ciúme é manifestação da homossexualidade do ciumento...) não vejo uma especificidade que possa levar a ilações que não sejam generalistas. 
Essas situações são reveladoras de uma "estrutura psíquica" não submetida à "castração", que tanto se manifesta em hetero como com homosexuais, que é a base da "estrutura perversa", se isso existisse, dado que a "estrutura do perverso" é fundamentalmente uma "estrutura psíquica" psicótica: por isso não é raro o discurso pseudo-místico nos "grandes perversos", que se crêem acima do ser humano vulgar e por isso com "direitos naturais" a reduzirem os outros a meros objectos ao seu dispôr. Voltando aos gays, recordo-me de uma amiga, que lidava com homossexuais homens diariamente, devido ao seu trabalho no mundo da arte, me dizer: "para aqueles ... todos os homens são gays e os que não são, são-o mas estão a armar-se em difíceis"! Isto é para mim típico da psicose delirante (se a "psicose delirante" não é uma perversão pode compelir,  e compele frequentemente, a atos de domínio e "objetualização" do "outro") que afeta parte da "comunidade" gay masculina em Portugal. Para muitos gays homens basta um sorriso de cortesia para se convencerem que "há coisa", não equacionando o contrário como "default". Depois interpretam tudo à luz dos "jogos" que eles se convencem que estão a acontecer, tornando-se violadores do "espaço psicológico" dos outros. Para que não fiquem dúvidas, eu conheço suficientes gays para não pretender generalizar o que quer que seja, no entanto acredito que existem especificidades dos países tradicionalistas e culturalmente atrasados, onde os gays apareceram repentinamente em massa como se fossem uma moda, uma coisa "moderna", "avançada", aparentemente "obrigatória" em tudo o que diga respeito à arte e à cultura, situação típica da grosseria e surrealidade, ridicularizada por Eça ao referir-se aos bicos dos sapatos usados pelas "elites" portuguesas, a imitar a moda francesa. Empiricamente, diria que o isolamento dos portugueses originou uma "estrutura psíquica" obsessiva, que é uma forma de psicose que se revela também na forma com que tentam impôr aos outros as suas opções, sob a capa de "coisa perfeitamente natural". A psicanalista Maria Belo teoriza a obsessão dos portugueses, portugueses homens, de forma diferente. No livro-tese (bem à portuguesa, pois trata-se da tese de doutoramento que a pessoa em questão defendeu pouco antes de se aposentar, para aumentar o montante da sua aposentação...) "Os filhos da Mãe", Maria Belo traça o "retrato psicológico" (já se percebeu que utilizo uma linguagem que está fora da linguagem convencionada da psicanálise, daí as muitas "aspas") dos portugueses, que são, essencialmente, uns "filhos da mãe" e (não li a tese mas logicamente será assim) está relacionado com a questão da "castração", ou com a falta dela, pois a figura simbólica da castração é o pai (a mãe impede a castração). Daí a quantidade de perversos que apodrecem o lugar (a grande corrupção de Estado é uma forma de perversão daqueles que em proveito próprio se apoderam dos bens públicos transformando os outros em objectos do seu "gozo" que foram desprovidos daquilo que genericamente lhes pertencia).


Importa reter que a perversão é determinada pelo gozo e não pela "estrutura psíquica", tal como tenho vindo a referir. Não há uma "estrutura perversa" mas psicóticos que são perversos e entre os perversos há uma "categoria especial": os "grandes perversos".


Devo igualmente recordar que o pedófilo justifica sempre a objetualização dos inocentes, dos quais abusa, como sendo um ato de amor. O namorado que mata a namorada "por amor" tem um discurso semelhante porque é um "grande perverso", já que "passou ao ato" (já foi além da mera fabulação psicótica). O "grande perverso" é um ser compulsivo, padece de uma compulsão, mas não é um caso clínico porque não é passível de "cura". Lacan deixou isto muitissimo bem claro: o "grande perverso" é um caso de polícia, não um "caso clínico". Por isso diria (e isto é da minha lavra pois não se pode encontrar em parte nenhuma qualquer conceito de "auto-castração" pois a "castração" é sempre imposta do exterior no tempo próprio) que o perverso é potencialmente um criminoso: o seu "gozo" justifica (para ele próprio) a objetualização dos outros, mas (digo eu) ainda pode conter-se, numa espécie de "auto-castração", que ser fruto da "socialização", "introversão", ou outro fenómeno extra-analítico. Já o "grande perverso" assume e pratica, na plenitude, o exercício do seu gozo, passando isso a ser o seu único e supremo "projeto existencial", até que o parem (mesmo depois de detido nada se modifica ao nível da "personalidade" - a personalidade é determinada pela forma de "gozo" do indivíduo - mesmo que pareça que sim e os perversos são os grandes especialistas na dissimulação: o exercício pleno e ilimitado do seu "gozo" é o seu modus vivendi).


Na página 61, citando Allouch que cita Foucault "Nós devemos criar prazeres novos, então, talvez o desejo siga.", Graciela não se dá conta que isto está nos antipodas da psicanálise. A criação da procura de prazeres infinitos não é de todo nem o objetivo da psicanálise freudiana nem da psicanálise lacaniana. Os exemplos que algures Graciela cita como um exemplo de "perversão normal" (a designação disso como "yoga anal" só podia mesmo vir de um único local no mundo...)é, em meu entender, um exemplo da procura de prazer, que pode tudo incluir, típica do perverso, de sujeitos não submetidos a quaisquer restrições na procura do seu prazer, que passam a "grandes perversos" quando essa procura implica a objetualização dos outros. Não sei se a esses níveis o limite não será já demasiado ténue, uma vez que o que move os atores é a obsessão do "prazer máximo", onde o respeito pela integridade do "outro" não será propriamente uma preocupação e, se o fôr, talvez seja obliterada pela obsessão da procura e pelo fantasma do "prazer máximo"(Lacan explicou a futilidade dessa procura).

O que Graciela propaga acriticamente na página 84 sobre o que Freud supostamente "considerou" nos "Três ensaios" não é só errado: é uma leitura deliberadamente falsa (e perversa!) do que Freud escreveu do que Freud pensou e do que Freud transmitiu e da-nos notícia sobre o que podem ser as "psicologias" e as "ciências humanas" no hemisfério sul de idioma português, porque na Argentina, onde as escolas de psicanálise têm grande nível, nunca li nenhuma aberração de calibre tenuamente semelhante.

A Graciela também confunde o imaginário dos homens com a homossexualidade das mulheres. Lacan deixou bem claro que entre a "estrutura psíquica" masculina e a feminina existe uma barreira intransponível. Não basta serem gays para "adquirirem" a "estrutura psíquica" feminina; por isso exageram, ridiculamente, nas suas poses e tiques femininos, que não passam disso mesmo: poses, tiques, show-off. O essencial, a "estrutura psíquica" (feminina), escapa-lhes liminar e definitivamente. Não vou falar sobre a teoria lacaniana sobre homossexualidade feminina; vou-me limitar a dizer que nada tem a ver com a homossexualidade masculina, logo não pode ser analisada da mesma forma. O que não invalida que hajam mulheres com "estrutura psíquica" masculina e vice-versa (aliás é aqui que assenta a teoria lacaniana da "normalidade" da homossexualidade) mas a generalidade da homossexualidade feminina não tem nada a ver com isto mas com a flexibilidade da "estrutura psíquica" feminina (em contraposição à "estrutura psíquica" obsessiva dos homens), pois a generalidade das mulheres homossexuais, ou contextualmente homossexuais, não andam com "mulheres-homem" (as tais com "estrutura psíquica" masculina) mas com mulheres como elas. E aqui entrei na parte que não desejava tratar neste "artigo", pois teria de explicar porque é que a "estrutura psíquica" feminina é flexível e do homem é (grosso modo) "obsessiva", coisa que decididamente não vou fazer agora. Não posso é deixar de manifestar espanto quando é enunciada a "máxima" lacaniana do "não há relação sexual" mas a autora continua a tratar a questão da homossexualidade (designação que segundo alguns autores nem sequer deveria ser utilizada já que pressupõe uma "normalidade" à qual o termo se oporia) em bloco, ignorando exatamente as consequências dessa "máxima", que está ancorada na diferença fundamental de "estruturas psíquicas", assim como a exclusão liminar das "mulheres-homem" da relação homossexual feminina, como consequência direta desse "não há relação sexual".


O que a Graciela cita na página 84, onde um tal "Alves" considera que Freud "considera", vai muito além do simples militantismo pois entra no campo da pura e dura charlatanice). O tempo "falará" sobre esses supostamente novos 
modelos de sexualidade. Até pode ser que sejam compatíveis com sustentabilidade das sociedades... (faz-me lembrar, e isto não tem nada que ver com o acima enunciado, 
os brasileiros que apareceram antes da homossexualidade estar popularizada em Portugal: muitos "tiques", muito "amaneirados", muito "viajados", "avançadérrimos" e cheios de "lábia" - a "lábia" de quem se atreve a escrever que Freud "considerou" exatamente o oposto daquilo que de fato "considerou" e ensinou: mal tiveram oportunidade de se "revelarem" parte deles demonstrou elevado grau de perversidade e perigosidade. Seguramente isto não é específico dos brasileiros, claro, mas é verdade sem e menor dúvida que "o Brasil tem algo do inferno").

# Lacan "normalizou" a homossexualidade dizendo que o homossexual tem uma "estrutura psíquica" feminina, logo age naturalmente de acordo com a sua "estrutura psíquica"... Como é evidente nesta "normalização" não entram os homossexuais "ativos" e os "bi", os "que vão a todas", concerteza que entram na categoria dos que procuram exaustivamente, deia por onde deia, o "prazer absoluto", eventualmente à custa da individualidade d@ "outr@"... Quando se tenta "fazer teoria" evita-se recorrer ás experiências pessoais, onde à partida se é ou foi um dos atores. Se fosse a meter as ditas cujas na construção do "aparato teórico", teria de postular que a generalidade dos gays são perversos, frequentemente omissos nas na descrição dos acontecimentos, muitas vezes mentirosos. Não aceitam de todo a heterosexualidade do "outro"; mantêm sempre, até ao limite, a ilusão, psicótica, porque abolutamente instalada na sua "psique", de que um dia conseguirão rompê-la. Quando finalmente "percebem" - na verdade nem percebem nem aceitam, são simplesmente complelidos a isso - que não o conseguirão (romper a heterosexualidade do "outro"), ficam "ressabiados" e vingativos, totalmente mergulhados na sua perversidade, que não lhes permite ver além da sua frustração absurda. Claro que não serão todos assim... mas não conheço suficientemente bem casos de gays que me parecem "normais" para poder postular seja o que seja. Os casos que conheço bem (dentro dos limites de se conhecer "bem" pessoas com quem se partilhou espaços, durante bastante tempo, mas com quem nunca se conversou muito - especialmente depois de noticiar que tudo parecia uma estratégia dos sujeitos que pareciam tentar minar, subtilmente, como parece ser uma especialidade sua, as minhas relações heterosexuais, como se naquelas cabecitas de gays, caso destruissem todas as minhas relações com as mulheres eles tivessem o campo livre (o que dá notícia da sua profunda psicose e incompreensão da realidade humana, da realidade humana de muitas pessoas, independentemente dos graus académicos, em "ciências humanas"... que tivessem conseguido - dizia eu que a comunicação se limitou ao estritamente necessário inerente à partilha de espaços comuns - o que não diminuiu o conhecimento que adquiri desses sujeitos pois as suas "táticas" e "estratégias", estas últimas mais rebuscadas pois implicavam a paciência - paciência deles ao imaginarem que um dia quebrariam a minha heterosexualidade e paciência minha que tive de os aturar, mas que de algum modo contribuiu para o meu conhecimento mais amplo da "espécie humana", ou um aspeto dela, seja lá o que isso fôr - voltada para médio e longo prazo, de aproximação gay, eram basicamente idênticas, talvez por se tratarem de pessoas "letradas", que simultaneamente auto-incluiam de alguma maneira na categoria de "artistas". No entanto há diferenças no comportamento dos gays portugueses - obsessivos e intolerantes, incapazes de racionalizarem a realidade da absoluta e liminar intransponibilidade do "outro", realidade essa que eles sublimam pela auto-convicção de que um dia o conseguirão quebrar, porque assim é a sua "estrutura psíquica" psicótica - dos gays da "Europa civilizada", que são capazes de aceitar a realidade sem reagirem "ressabiadamente" - nada distes experiências adquire valor "científico" porque não testado sob condições "laboratoriais" sob pré-condições adequadas, além de que não sei a "posição", na relação homossexual, de cada um destes exemplares com quem me fui confrontando, já acima tendo referido que tal é, em meu entender, substancialmente relevante para qualquer análise "séria"), levam-me exatamente a postular o contrário: por isso não quero fazer teoria a partir deles. Finalmente, concerteza que o mesmo com pessoas "normais" (mas perversas se tiverem aqueles comportamentos). Então estaremos no domínio da perversão, não da "normalidade", porque a "perversão normal", se existe, tem de ser "escalonada", tem de haver "graus" de aceitabilidade: "o céu" não pode ser o limite para a perversão e para a perversidade, ainda que os perversos atuem como tal, se os deixarem (nunca encontrando o "céu", obviamente). Há que colocar limites impostos a partir do exterior: aquela velhinha figura da "castração", mais atual e necessária que nunca.

* so objet petit a is the object of desire which we seek in the Other

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