Da “banalidade do mal”

O filme "Hannah Arendt", realizado por Margarethe von Trotta, foi talvez concebido pensando no momento presente, onde “governos” tentam convencer as pessoas que elas são simplesmente desnecessárias. Não é necessário serem criminosas: essa “desnecesidade” é suficiente para justificar a sua “natural” eliminação.

A questão fulcral no filme é a expressão de Arendt sobre o papel dos “representantes” dos judeus. Arendt afirmou que se não tivessem existido esses “representantes”, os números dos “eliminados” seriam substancialmente mais baixos. Esta é uma problemática fundamental. A questão era uma questão de sobrevivência pois enquanto os “representados” eram despejados nos fornos crematórios, os “representantes” eram mantidos vivos, já que eram necessários à “máquina”. Ou seja: os “representantes” faziam parte da própria “máquina” extreminatória. Não admira pois o nível do “escândalo” que as afirmações de Arendt causaram: boa parte do “status quo” judaico eram sobreviventes, alguns dos quais ex-“representantes” ,durante o poder nazi, das respetivas comunidades judaicas de origem. Clamou-se logo “traição”, ao “povo judaico”, quando na realidade Arendt se limitou a fazer uma constatação, ao longo do julgamento de Eichmann, onde vários ex-”representantes” tomaram a palavra, tentando justificar-se dos factos apontados por Eichmann, provados documentalmente, ao longo da defesa que fez de si próprio.

O “fanatismo” de Eichmann no cumprimento da “lei” não foi, nem é, exclusivo dos nazis: basta pensarmos nos milhões que Estaline fez morrer de fome na Ucrânia ao tirar-lhes, via "executores", toda a produção anual de trigo, porque não alcançaram os objetivos traçados pelo “partido” no “plano quinquenal”... Hoje basta olhar para a Síria, que não fica exatamente do outro lado do mundo, e ver-se o genocídio do seu próprio povo para se manter agarrado ao poder. É também uma luta pela própria sobrevivência, física, mas, depois de tudo, será que Assad e apoiantes merecem viver? Provavelmente não.

Já quanto à afirmação que a atrocidade é devida ao não pensar do “zé ninguém”, que assim se sonega à sua condição humana, de “ser pensante”, diria que o próprio Heidegger, que Arendt não consideraria um “zé ninguém”, atuou, em última análise, como Eeichmann, ao não se opôr à atrocidade. Basta pensar como Erich Kleiber recusou participar na atrocidade, ou viver ao lado dela, mesmo nela não participando, abandonando a Alemanha e a direção da Staatsoper e recusando a titularidade do La Scala.

A generalização do mal - que, em meu entender, só é possível devido aos "caudais" de cumplicidade - é "aquilo que sobra" da reflexão de Arendt, reduzindo-se o ser humano a um ser que deve ser caraterizado não como um "ser reflexivo", um "ser pensante", mas um ser que sobrevive, ou pensa que sobrevive, por cima dos cadáveres dos outros "seres pensantes". Heidegger apercebeu-se disso bem cedo ao afirmar, na Carta sobre o Humanismo, que a atrocidade faz parte da “humanidade do homem”.

No julgamento de Eichmann mais do que a “banalidade do mal” chega-nos notícia da capacidade contaminativa do próprio mal. Mas esta “capacidade contaminativa” só é possível (e só existe) devido à “natureza essencial” de um ser com consciência plena do mal que pratica para sobreviver (1): o ser humano. A atrocidade não faz faz parte da "humanidade do homem": a atrocidade é a essência da “humanidade do homem”.

Passando ao contexto português, é evidente que o atual governo é um governo de inspiração nazi que utiliza exatamente o mesmo tipo de argumentação ideológica, quer no sacrossanto “respeitar” (a nuance do discurso do pobre honrado...) as "obrigações", ilegítimas, derivadas de contratos corruptos, feitos pelos governantes, que causam grande dano ao Estado e aos contribuintes (que são o equivalente à “lei” que os nazis juraram, que leva a Heichman a afirmar que mataria o próprio pai se se provado que ele era um “traidor” - no caso português "traidor" dos interesses das empresas que beneficiaram de contratos que deveriam ser considerados um crime contra o Estado) e o discurso da não necessidade das pessoas (os assessores, “especialistas” à pressão, esses sim, são vitais, como Heichman o era para o funcionamento da “máquina”...), porque para cumprir as tais "obrigações" derivadas dos contratos criminosos é necessário despedir pessoas e reduzir os serviços do Estado. Esta prática nazi foi inaugurada pelo governo anterior, em que professores morreram em serviço, com doenças graves, porque as juntas médicas, a da então ministra da educação, lhes negaram a aposentação. A memória não pode ser curta. Se o fosse, Eichmann, o não assim tão “zé ninguém” (2), não teria sido enforcado, andaria por aí... A justiça é o único garante de haver um travão à absoluta generalização do mal e como tal deve ser, cedo ou tarde, aplicada na sua amplitude maior. AT

1 - para tentar enriquecer, seja lá para o que fôr. 2 - No limite, o ponto de vista de Arendt conduzir-nos-ia à redução do próprio Hitler a um zé ninguém, o que ele seria concerteza (basta ter-se em mente a sua frustração “siminal” contra o júri , maioritariamente constituído por judeus, que lhe impediu o acesso à escola superior de Belas Artes de Viena (mas isto conduzir-nos-ia para outro tipode análise, que será eventualmente a mais relevante para a análise do Mal...), mas não é isso que impedirá a concretização da justiça.


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