Muito Chão

A peça de Benvindo da Fonseca, "Muito Chão", estreou sábado, 12 de Outobro, no Fórum Luisa Todi, em Setúbal. Lugar interessante para a estreia de uma peça de dança contemporânea. O Fórum encheu-se de pessoas que vieram de fora de Setúbal porque, aparentemente, os sadinos não se deram conta do interesse do evento. Como ainda não se deram conta que, gratuitamente, todas as segundas-feiras, no mesmo espaço, o Lauro António apresenta filmes americanos históricos, da sua escolha, em filme, sim, em película. Gratuitamente, sim, gratuitamente. Há aquela frase das nozes e dos dentes, ou falta deles... Adiante.

Lembro-me que numa entrevista à genial Anne Thérese (interrompida pela pilha do gravador que acabou...) lhe coloquei a questão da potência da música, sub-repticiamente questionando-a até que ponto a música pode ultrapassar e mesmo anular a força do movimento estético visível, questão se se torna substancialmente mais pertinente no presente trabalho de Benvindo da Fonseca, nomeadamente, já que é disso que aqui trato.

Ouve momentos (em Elgar, que, assinale-se, não consta na lista dos "meus" 20 grandes compositores, e em Purcell, idem aspas), em que me apeteceu simplesmente fechar os olhos. No entanto, Benvindo conseguiu segurar o público devido ao contraste entre a força da música e o jocoso, quase ridículo, do movimento do dançarino. Fez-me lembrar a ironia "gozatória" de alguns "allegretos" das sinfonias de Shostakovich...

Benvindo teve pretensão nesta peça, uma pretensão de caráter universalizante, pretendeu refletir sobre o mundo e a sua diversidade, conduzindo-o à unidade, coisa que se materializou na diversidade das escolhas sonoras e no seu entrelaçamento. Tenho dúvidas que o resultado tenha estado à altura da pretensão, mas sem dúvida que Benvindo da Fonseca revelou, uma vez mais, o seu talento e a sua cultura musical, assim como os seus conhecimentos profundos de história da dança moderna e contemporânea. Nem sempre senti o "fio condutor" que "colasse", consistentemente, os sucessivos momentos da obra, mas o trabalho de Benvindo teve mérito.

Finalmente uma palavra sobre as iniciativas da Companhia de Dança de Almada. No deprimente deserto em que o assassinato dos Encontros Acarte, seguido do assassinato do Ballet Gulbenkian, nos deixou [temporariamente substituídos pelos grandes eventos no São Luiz ("temporadas" Anne Thérese, Pina Baush, nomeadamente), devidos especialmente à iniciativa do seu diretor à época, o Jorge Salavisa], quero realçar que as temporadas promovidas pela Companhia de Dança de Almada constituem, atualmente, o principal espaço, neste país cada vez mais estupidificado e decadente, de visualização, usufruto e "discussão" da dança contemporânea. A companhia, ao nível do seu próprio desempenho, demonstrou um surpreendente nível técnico e interpretativo. Por isso aqui fica a minha palavra de reconhecimento pelo que fazem e de incentivo de que não parem (e não deixem que @s parem). Álvaro Teixeira

Nota: a integração do intérprete das tablas electrónicas (ou o que parecia sê-lo) na coreografia foi uma boa opção. Há inúmeros exemplos bem conseguidos desta "técnica", como por exemplo este.

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