Um pequeno esclarecimento que convém

Gostaria de esclarecer algo: há várias décadas, o meu pai abandonou a sua óptica, a Óptica Teixeira (o meu pai foi o primeiro óptico em Vila Real), porque decidiu aderir ao projecto que um alemão lhe propôs de fundar a fábrica das lentes, em Vila Real, criando dezenas de postos de trabalho (na Óptica tinha um único empregado, que aprendeu com o meu pai, e que foi o segundo técnico de óptica em Vila Real). É pena que depois do 25 de Abril o meu pai fosse insultado de "rei", por ser monárquico, talvez pelas mesmas pessoas, ou familiares das mesmas pessoas, que apareciam lá em casa, quase de joelhos, a pedir trabalho, a quem o meu pai nunca recusou. O meu pai aposentou-se com um reforma de pobre devido à sua generosidade em abandonar um projecto privado, de grande sucesso e pouco risco (e sem necessidade de subsídios do Estado!), para aderir a um projecto de capitais estranhos (do qual acabou por ser afastado posteriormente quando o alemão já não necessitava dele), somente pela vontade de criar postos de trabalho numa cidade que não os tinha.

Quanto à suposta "neutralidade" do meu pai face ao regime fascista é pena que as pessoas que a seguir ao 25 de Abril o insultaram e ridicularizaram, ignorem (ou fizessem que ignoravam), que, se o meu pai "saísse da linha", era o meu tio, Joaquim de Sousa Teixeira, preso político anti-fascista, que tinha fugido do hospital-prisão mas que estava perfeitamente localizado pela PIDE (que avisou o meu pai que se algum dos dois "saísse da linha" apanha-lo-iam, ao meu tio, no próprio dia), quem pagaria (e desta vez nem o meu avô o conseguiria salvar). O meu tio tinha vindo para o hospital-prisão devido aos incansáveis esforços do meu avô, que andou de Vila Real para Lisboa, de Lisboa para Vila Real, de gabinete de ministro para gabinete de ministro, como um louco, até conseguir que o filho fosse transferido do Tarrafal (sim, do Tarrafal - o campo da morte!) para o hospital-prisão, no continente (o meu tio encontrava-se gravemente doente e corria risco de vida se não o tirassem do Tarrafal). Senão por lá teria ficado, como tantos outros. É pena que a bronquice de muitos portugueses não os deixe ver para além do que têm mesmo à frente do nariz. 

Bem aja o meu "tio Quim", pela sua integridade, dignidade e coragem (no julgamento contrariou os advogados que o meu avô lhe arranjou, declarando solenemente que não estava arrependido de ter participado na "revolta da armada" e que voltaria a fazer o mesmo: daí a pena pesada que a justiça terrorista lhe aplicou aos 17 anos de idade). É pena que o país, os políticos, os banqueiros, os "grandes" administradores, os "grandes" professores catedráticos, os "grandes" juristas e os "grandes" empresários portugueses, não tenham sabido estar minimamente à altura do exemplo do meu tio, que sacrificou a sua juventude e saúde em vão (e que a seguir ao 25 de Abril recusou liminarmente "inscrever-se" em qualquer partido político, quiçá premonição do estava para vir...). Bem haja o meu pai, que não sendo um herói como o meu tio Quim, é uma boa pessoa.

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