O próximo pesadelo da Europa

O cenário de pesadelo seria também uma vitória para o extremismo político ao estilo dos anos 1930. O fascismo, o nazismo e o comunismo eram filhos de uma chicotada contra a globalização, que vinha crescendo desde o final do século XIX, alimentando-se das ansiedades de grupos que se sentiam marginalizados e ameaçados pelas forças de mercado em expansão e pelas elites cosmopolitas.

O comércio livre e o padrão-ouro tinham exigido relegar para segundo plano prioridades internas tais como a reforma social, construção da nação e a reafirmação cultural. A crise económica e o fracasso da cooperação internacional comprometeram não só a globalização, mas também as elites que apoiavam a ordem existente.

Como escreveu o meu colega de Harvard, Jeff Frieden, foi assim que se abriu caminho para duas formas distintas de extremismo. Confrontados com a escolha entre equidade e integração económica, os comunistas escolheram a reforma social radical e a auto-suficiência económica. Confrontados com a escolha entre afirmação nacional e globalismo, os fascistas, os nazistas e os nacionalistas e escolheram a construção da nação.

Felizmente, o fascismo, o comunismo e outras formas de ditaduras encontram-se hoje ultrapassadas. Mas, existem tensões semelhantes entre integração económica e política local que estão, há muito tempo, latentes. O mercado único europeu tomou forma de uma maneira muito mais rápida do que o fez a comunidade política Europeia; a integração económica sobrepôs-se à integração política.

Daqui resulta que as preocupações crescentes sobre a erosão da segurança económica, estabilidade social e identidade cultural não podiam ser tratadas através dos canais políticos tradicionais. As estruturas políticas nacionais tornaram-se demasiado limitadas para oferecer soluções eficazes, enquanto as instituições europeias continuam demasiado fracas para exigir lealdade.

A extrema-direita é quem mais tem beneficiado com o fracasso dos centristas. Na Finlândia, o até então desconhecido partido Verdadeiros Finlandeses (True Finns) aproveitou o ressentimento em torno do resgate da zona euro para ser o terceiro mais votado nas eleições gerais de Abril. Na Holanda, o Partido para a Liberdade, de Geert Wilders, exerce poder suficiente para ser um elemento decisivo, sem o seu apoio, o governo de minoria liberal fracassaria. Em França, a Frente Nacional, que ficou em segundo lugar nas eleições presidenciais de 2002, foi revitalizada com Marine Le Pen.

A repercussão disto não está confinada aos membros da zona euro. Na Escandinávia, os Democratas da Suécia, um partido com raízes neonazis, entrou para o Parlamento no ano passado com cerca de 6% dos votos populares. Na Grã-Bretanha, uma sondagem recente indicou que mais de dois terços dos conservadores querem que a Grã-Bretanha saia da União Europeia.

Os movimentos políticos de extrema-direita são tradicionalmente alimentados pelo sentimento de anti-imigração. Mas os resgates da Grécia, Irlanda, Portugal, e outros, em conjunto com os problemas do euro, deram-lhes novo alento. O seu eurocepticismo parece, decerto, justificado pelos acontecimentos. Quando, recentemente, perguntaram a Marine Le Pen se iria retirar-se unilateralmente do euro, ela respondeu com confiança: "Quando eu for presidente, dentro de alguns meses, a zona euro provavelmente não existirá." Dani Rodrik in publico.pt

Nota: os do Norte e os que querem salvar a UE e a democracia na Europa, têm de compreender definitivamente o seguinte: o problema do Sul é a corrupção e enquanto isso não fôr liminar e definitivamente irradicado o extremismo impôr-se-á de novo, mais tarde ou mais cêdo, no Sul da Europa, podendo eventualmente alastrar-se a toda a Europa.

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