À grande e à francesa

Os registos das conversas no palácio da família Bettencourt, em Neuilly-sur-Seine, a oeste de Paris, foram efetuados durante um ano com gravadores escondidos nos tabuleiros de prata onde o mordomo servia o chá a Liliane e aos seus convidados. Françoise nega ter sido ela a comanditária das gravações. Mas é fortemente suspeita de o ter feito porque pretendia encontrar provas de que a mãe, de 88 anos, já não controlava plenamente as suas capacidades intelectuais e psíquicas. Esta semana, as duas chegaram finalmente a um acordo e Françoise desistiu dos processos em tribunal, pondo termo a uma querela que as afastava há anos.

Mas o que começou como uma disputa familiar já se tinha transformado, desde o verão, num petardo gigantesco para a República francesa. É que as gravações, que enchem 28 CD continham revelações explosivas sobre ligações muito perigosas, muito mais do que íntimas, de Liliane com o poder político de Paris. Nas conversas, amplamente divulgadas pela imprensa, ouve-se, por exemplo, Patrice de Maistre, gestor da imensa fortuna de Liliane, avaliada em 17 mil milhões de euros, evocar com ela fugas ao fisco, contas secretas na Suíça e proteções ao mais alto nível, designadamente do Presidente Nicolas Sarkozy e do seu então ministro do Orçamento, Eric Woerth.

Em suma, constituem matéria para eventualmente darem origem a um dos mais incríveis argumentos de cinema de todos os tempos. Ou para resultar num autêntico Watergate à francesa se a justiça conseguir funcionar de forma independente, o que ainda não é certo dadas as altercações que se instalaram desde há meses entre juízes de instrução, procuradores e políticos.

Ilha nas Sychelles

Ouve-se, por exemplo, o gestor dizer que planeia retirar 100 milhões de euros da Suíça para os dispersar por Hong Kong, Singapura e Uruguai, onde "ficariam mais seguros". Mas à frente explica também à patroa que o contrato com Florence Woerth, que passara recentemente a trabalhar na empresa que geria a sua fortuna, era no fundo "um investimento". "O seu marido, Eric Woerth é ministro do Orçamento, ele pediu-me para a contratar e eu fi-lo para ele ficar contente e porque é um amigo e é ele que olha pelos nossos impostos", diz. Mais espantoso ainda, Patrice de Maistre informa Liliane que não deverão verificar-se grandes problemas com o processo que a filha lhe deseja intentar porque, sic!, "o Presidente segue a coisa de perto e nós conhecemos o procurador muito bem".

Evidentemente, Sarkozy e Woerth (este último passara do Ministério do Orçamento para o do Trabalho em março de 2010) clamaram prontamente a sua "honestidade" e desmentiram firmemente o que qualificaram de "calúnias, infâmias e conspirações orquestradas". Mas as revelações dos CD vão muito mais longe. Mais um exemplo: é evocada a existência de uma ilha nas Seychelles que nunca fora declarada ao fisco.

Perante a avalancha destas informações inacreditáveis, todos os comentadores foram unânimes. Realçaram a evidência da existência de um conflito de interesses da parte de um ministro cuja mulher trabalhava na gestão de uma das maiores fortunas francesas, que também era, na época, uma das principais financiadoras das campanhas eleitorais da UMP, União para um Movimento Popular. Este partido, que sucedeu ao gaullista RPR, é que levou Sarkozy à presidência. Mas verificava-se um problema suplementar que acentuava o conflito de interesses: Woerth era igualmente o tesoureiro da UMP!

Como se isto não bastasse, uma contabilista revelaria pouco tempo depois que Patrice de Maistre a mandou um dia meter 195 mil euros num envelope para entregar a Woerth "para a campanha da UMP". A acusação era grave porque as doações aos partidos políticos em França são legalmente limitadas a um máximo de 9700 euros. Mas depois, todos os franceses ficaram ainda um pouco mais pasmados: a mesma funcionária acrescentaria que também o próprio Sarkozy passava de vez em quando pelo escritório, quando era presidente da Câmara de Neuilly, para receber "o seu envelope".

515 mil euros para ser testemunha

O escândalo estava a assumir proporções descomunais e o verão ameaçava ser quentíssimo. A contabilista desapareceu por uns dias, mas a polícia encontrou-a no Sul de França, amedrontada e escondida na casa de um familiar. Aos agentes confirmou apenas o envelope de 195 mil euros para Woerth. Sobre os de Sarkozy já não se lembrava muito bem quantas vezes ele lá foi, nem quais eram as razões das visitas.

O depoimento da contabilista cairia entretanto, em parte, por terra. Ela teria recebido de Françoise 515 mil euros para ser sua testemunha no processo contra a mãe, que a filha considerava estar demente. Uma empregada da casa teria dito a Françoise que ouvira Liliane dizer a François-Marie Barnier que o desejava adotar como filho e que o iria nomear executor testamentário depois da sua morte.

Este episódio ficou por aqui. Liliane não confirmou que queria adotar o fotógrafo e, devido a pressões dos seus advogados, deixou mesmo de o receber em casa e de sair com ele como fazia antes. Mas o folhetim prosseguiu de forma imparável. Um jornal noticiou que o fisco reembolsara 38 milhões de euros a Liliane, em 2008, ao abrigo do muito legal "escudo fiscal" destinado a evitar que as grandes fortunas fujam de França. Em plena crise económica e com os franceses a verem os salários reduzidos e o desemprego a aumentar, a notícia, que foi confirmada, teve o efeito de uma bomba nuclear: Sarkozy e Woerth passaram definitivamente a ser vistos como os amigos dos ricaços. Regressaram então de novo ao país as histórias trocistas do Presidente "Bling-Bling" que gosta de andar na rua exibindo relógios Rolex de ouro e de passear em iates de luxo.

Tentando acalmar a violenta tempestade, Florence Woerth demitiu-se das funções de adjunta de Patrice de Maistre e o marido confessou com o ar mais inocente do mundo que nunca tinha pensado realmente no "eventual conflito de interesses" que o emprego da mulher alimentava. Numa recente remodelação governamental, no mês de novembro, Woerth saiu do Governo pela pequena porta. Desapareceu da cena política como um fusível queimado. A sua tarefa de proteger o Presidente tinha findado. Devido a este caso, no qual ele é uma peça central e que está longe, muito longe, de estar completamente deslindado pela justiça, Woerth ficou conhecido como o "cara de cangalheiro". O ministro andou meses e meses numa constante roda-viva de extremo stresse, perseguido em permanência por batalhões de jornalistas e deixou-se enredar em contradições das mais pueris. Um dia jurou que quase nunca tinha visto Patrice de Maistre, a quem terá pedido pessoalmente emprego para a mulher. Dias depois, saber-se-ia que ele próprio o condecorara, em 2008, no Ministério do Orçamento como Cavaleiro da Legião de Honra, a mais alta condecoração civil francesa... expresso.pt

Nota: eis porque prefiro que a UE se dissolva a uma UE com a Alemanha pouco envolvida e dominada pelos franceses.

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