Estado mafioso I

A Rússia é descrita como um “Estado mafioso” em alguns dos documentos confidenciais trocados entre embaixadas e o Departamento de Estado norte-americano, que foram divulgados pelo website WikiLeaks, provocando uma enorme crise diplomática mundial.

Muitos daqueles documentos confidenciais relatam a existência de corrupção espalhada por todos os níveis de governação, girando em torno de um eixo de fidelidades devidas à liderança do primeiro-ministro, Vladimir Putin, que ocupa na percepção generalizada dos russos a chefia do país, de acordo com um juiz espanhol que assina um dos telegramas dirigidos a Washington.

Investigador especializado no crime organizado, o juiz José Grinda – que desenvolveu uma intensa investigação a actividades criminosas russas em Espanha (conduzindo a mais de 60 detenções) – relata práticas generalizadas de subornos e protecção de grupos que defendem os seus próprios interesses em toda a Administração russa – deixando “muito poucas diferenças entre o Governo e o crime organizado”, avalia.

O valor desta economia paralela de subornos ascende a uns estimados 300 mil milhões de dólares por ano, calcula o jornal britânico "Guardian" que teve acesso integral a todos os documentos divulgados pela WikiLeaks.

Putin, em entrevista à cadeia televisiva norte-americana CNN, disse achar que há “objectivos políticos” na divulgação daqueles documentos, mas desvalorizou em parte o seu impacto, considerando que “não se trata de uma catástrofe”.

“Alguns peritos crêem que alguém está a enganar a WikiLeaks para minar a reputação [do website, que se tornou popular a divulgar informações secretas sobre a guerra no Afeganistão e Iraque]. Que está a ser usada por alguém para os seus fins políticos no futuro. Essa é uma das possibilidades”, sustentou o primeiro-ministro russo nesta entrevista transmitida ontem à noite.

Putin, que surge descrito em alguns dos documentos secretos como “líder da matilha”, ou comparado a Batman, sendo Robin o Presidente, Dmitri Medvedev, pareceu não ter gostado especialmente destas analogias feitas por alguns diplomatas norte-americanos. “Para ser sincero, nunca pensámos que uma coisa destas pudesse ser feita com tal arrogância e com tanta falta de ética”, observou.

Num dos telegramas confidenciais do controverso pacote divulgado pelo WikiLeaks (251,287 mensagens facultadas na totalidade aos jornais "The New York Times" e "Guardian"), a embaixada norte-americana em Madrid menciona uma série de “questões ainda sem resposta” sobre a alegada extensão do envolvimento do primeiro-ministro russo nas redes das máfias e sobre o controlo que Putin terá sobre as suas actividades. É sugerido mesmo que a máfia desempenha "trabalho sujo" para o Kremlin.

Estas mensagens relativas à Rússia mostram também que Washington acredita ser muito provável que Putin tenha tido conhecimento da operação em que foi morto o antigo ex-espião do KGB Alexander Litvinenko, envenenado em Londres, em 2006, com uma raríssima substância radioactiva. O Kremlin tem negado insistentemente qualquer envolvimento no caso, que minou profundamente as já difíceis relações entre a Rússia e o Reino Unido.

A questão da corrupção – um dos temas mais mencionados nos telegramas confidenciais relativos à Rússia – é abordada também num documento assinado pelo embaixador norte-americano em Moscovo John Beyrle. “Há elementos criminosos que gozam de uma rede de protecção que se estende através da polícia, dos Serviços Federais de Segurança, do Ministério do Interior e até da procuradoria-geral, assim como nas estruturas do governo local de Moscovo”, afirma o diplomata.

Este retrato de uma Rússia profundamente corrupta não é novo e foi mesmo um dos temas centrais do discurso à nação feito terça-feira pelo Presidente russo. Ali, perante a totalidade dos membros das duas câmaras parlamentares (Duma e Conselho da Federação) Medvedev acusou claramente as forças policiais do país de terem ligações ao crime organizado e instou à necessidade de reformas para combater a corrupção no Estado. publico.pt, 2 dez

Nota: aprenderam tudo, ou quase, com os italianos que inventaram e internacionalizaram a Máfia, e, aparentemente, ultrapassaram-os. E Portugal não tem sido um Estado mafioso, controlado por grupos e interesses "obscuros"? E a Inglaterra que tudo e todos tenta corromper para conseguir os seus intentos, não é um Estado, melhor, um Reino Mafioso? Sem dúvida que o facto de existir liberdade de expressão faz a diferença, mas quantas pessoas têm sido segregadas e prejudicadas por exercerem a sua liberdade, independência e capacidade crítica em Portugal? E que dizer de Estados que fazem parte da UE, nomeadamente da Bulgária, da Roménia e da Letónia? Não serão, por acaso, Estados (muito) mafiosos?

Mensagens populares